Redescobrindo a Igreja Mãe

Seria "presbiterianismo high-church" um oximoro?

por Darryl G. Hart

tradução de Natan Cerqueira

     As palavras “high-church” e “presbiteriano” raramente encontram-se juntas, e por bom motivo. Os presbiterianos anglo-americanos e seus irmãos reformados no continente europeu nunca se distinguiram por possuírem as mais refinadas sensibilidades litúrgicas ou mecanismos altamente eficientes de proteger as prerrogativas do clero.

     Claro, para os descendentes de Calvino, teologia é moleza. Mas no espectro eclesiástico protestante de cima a baixo, o máximo que os presbiterianos conseguem é se posicionarem mais ou menos onde os congregacionais estão, ali no meio, com os luteranos e episcopais acima e o metodistas e os batistas abaixo. Isso pode ajudar a explicar o velho dito de que batistas são metodistas com sapatos, e presbiterianos são batistas que sabem ler.

     Por mais decente e ordeiro que seja aos presbiterianos habitar no meio das noções protestantes sobre liturgia e ministério da Igreja, ainda assim, se relegados a seus próprios recursos, eles invariavelmente descerão às regiões mais baixas das sensibilidades eclesiásticas. Assim, para batistas em ascensão, a opção presbiteriana é bastante feliz, já que ela raramente demanda um ajuste significativo muito além de vir a termos com o batismo infantil.

     Minha esposa e eu fomos criados em congregações batistas fundamentalistas e agora pertencemos à Orthodox Presbyterian Church (OPC), uma denominação basicamente low-church. Cinco entre seis de nossos irmãos e irmãs já foram membros do equivalente sulista da OPC, a Presbyterian Church in America (PCA). Embora a evidência seja empírica, tal evidência confirma o ponto de que o presbiterianismo não é algo muito distante dos batistas. Na verdade, pode até ser que seja a preferência denominacional de batistas passando por ascensão social.

      Conquanto o presbiterianismo ofereça uma forma mais elitizada de cristianismo protestante aos batistas, seus impulsos low-church são legião para os crentes que uma expressão mais sóbria e formal de devoção. Nós já estamos bastante longe da publicação de Evangelicals on the Canterbury Trail[1], de Robert Webber, para alegar que presbiterianos em busca de um culto sério estejam se tornando episcopais. Isso pode ter sido verdade nos anos 70, mas os presbiterianos buscando ascensão eclesiástica hoje ampliaram seus horizontes e podem agora ser encontrados entres os ortodoxos orientais e os católicos romanos.

     Rara é a congregação presbiteriana que ofereça a almas de mente litúrgica um lar confortável. Outros presbiterianos, ao tentar extrair graciosidade litúrgica de uma tradição que aparenta não nenhuma, recorrem a uma forma intelectualizada de adoração mista. Ao invés de introduzir cânticos e coros na liturgia presbiteriana média – o que seria a forma mais simplesinha – aqueles que querem uma formalidade maior importam elementos litúrgicos de outras tradições high-church ao culto presbiteriano.

Presbiterianos podem ser high-church?

     Mas talvez seja desnecessário voltar-se massivamente a outras tradições ou suplementar a devoção presbiteriana com a devoção anglicana ou ortodoxa. Talvez exista, enterrada no meio da massa histórica de presbiterianismo low-church, uma tradição high-church tão divinamente ordenada e liturgicamente bem concebida quanto o melhor que há nas outras tradições mais para cima na escala. Se for assim, então presbiterianismo low-church é que seria o verdadeiro oximoro.

     Muitos cristãos podem se surpreender com as tendências high-church dentro da tradição reformada, presbiterianos, inclusive, figurando entre os mais surpresos. Protestantes na América do Norte estão tão habituados a lembrar-se apenas dos sentimentos anti-papistas que se esquecem de quantas práticas e crenças da cristandade foram perpetuadas em igrejas luteranas e calvinistas, dentre as quais destacam-se o respeito pelo ritual, pela formalidade e pelo santo ministério. A Reforma Protestante, afinal de contas, foi justamente isso: uma reforma das formas e estruturas, não um repúdio a ritual e legítima autoridade eclesiástica (obviamente, isso é disputável para os católicos romanos).

     De fato, é uma distorção grosseira atribuir à tradição reformada especificamente as características low-church que dominam o evangelicalismo nos EUA. Os primeiros credos das igrejas presbiterianas e reformadas pressupunham uma alta estima pelo ministério ordenado da Igreja: da função dos pastores aos meios de graça, assim como uma aderência às formas corretas de liturgia e governo. Os reformadores estimavam a Igreja Católica Romana como corrupta, mas em nenhum lugar eles demonstraram o tipo de desprezo pela igreja visível e pelas expressões comunitárias da devoção cristã que algumas vezes têm caracterizado o protestantismo americano. Apenas no século XVII, a era do pietismo e do puritanismo, foram amplamente questionadas as visões high-church.

     A área mais óbvia onde se separam os protestantismos high-church e low-church é o culto. Deixando os sacramentos de lado por um momento, a liturgia high-church é mais formal, reservada e usa formas e rituais aprovados do que o culto low-church, que tende mais ao espontâneo e expressões da devoção popular. Seria vã a busca por informalidade ou expressões individuais nas liturgias reformadas dos séculos XVI e XVII. De fato, praticamente todas as igrejas da ala calvinista da Reforma produziram e usaram formas escritas e seguiam uma ordem de culto definida. Em outras palavras, a unanimidade litúrgica prevaleceu tanto entre as igrejas reformadas dos Países Baixos e as igrejas presbiterianas da Escócia quanto entre os protestantes ingleses que seguiam Livro de Oração Comum.

     Este é precisamente o intuito por trás do livro A Liturgia Reformada[2][3], de Charles Baird, uma coletânea de formas e cultos das igrejas reformadas da Europa e Grã-Bretanha. Um jovem ministro presbiteriano do século XIX, Baird reuniu as liturgias das igrejas reformadas por causa da frustração com o Diretório de Culto Público[4] de sua igreja. Por um lado, Baird cria que as instruções gerais do Diretório para ordenamento do culto impediam “o uso das melhores composições litúrgicas”, forçando, assim, a dependência “em nossos recursos individuais de concepção, por mais grosseiros, escassos e imaturos que fossem”.

     Baird preocupava-se com a qualidade da expressão litúrgica e desejava que a adoração fosse “desempenhada com dignidade e propriedade” a fim de que, nas palavras do Diretório de Westminster, o culto “não fosse desonrado com efusões vis, irregulares ou extravagantes”. Conseguintemente, Baird devotou três capítulos para as liturgias de Calvino, um para liturgias reformadas na França, duas ao presbiterianismo escocês, três para desenvolvimentos ingleses entre os puritanos e a Igreja da Inglaterra, um para os reformados holandeses, um para os reformados alemães e, finalmente, um para o presbiterianismo americano de estirpe mais elevada. Todas as igrejas ordenavam seus cultos segundo o padrão geral estabelecido por Calvino em Genebra, que seguia assim:

  • Invocação
  • Confissão de Pecados
  • Oração por Perdão
  • Cântico de um Salmo
  • Oração por Iluminação
  • Lições da Escritura
  • Sermão
  • Coleta das Ofertas
  • Orações de Intercessão
  • Credo Apostólico (cantado enquanto os elementos da Ceia do Senhor eram preparados)
  • Palavras da Instituição
  • Instrução e Exortação
  • Comunhão
  • Oração de Ação de Graças
  • Bênção

Surpreendentes Orações – e escritas!

     Com exceção das igrejas presbiterianas que seguem o estilo litúrgico de Louvor & Adoração, dividindo o culto ao meio (30 minutos de cantoria, 30 minutos de palavra), a maioria das igrejas presbiterianas hoje seguem esse modelo de algum modo. E é por isso que a ordem de culto não é o suficiente para qualificar alguém a ser incluído na ala high-church do protestantismo. Mais importante do que a liturgia estruturada é o uso de formas e orações escritas.

     Outra vez: presbiterianos devem ser os mais surpresos ao descobrirem quantas orações os reformadores escreveram não apenas porque aqueles que ouviam seus sermões ou palestras as transcreviam, mas porque os líderes protestantes compuseram orações para serem usadas por outros membros e oficiais da igreja. No sentido de um presbiterianismo high-church que usa orações escritas, pouquíssimas congregações se qualificariam como high-church; e aquelas que, sim, usam essas formas costumam mesclar elementos litúrgicos de tradições não reformadas, pois aparentemente não estão cientes das orações usadas pelos seus antepassados teológicos. A sensibilidade low-church está tão inculcada no consciente presbiteriano [moderno] que qualquer anseio por uma expressão mais dignificada de culto resulta em ter-se de buscar algo nas liturgias episcopais ou ortodoxas orientais.

     Contudo, como indica Baird no livro A Liturgia Reformada, os líderes das igrejas reformadas e presbiterianas nos séculos XVI e XVII não apenas forneciam a ordem do culto, mas também as orações e formas a serem usadas. Por exemplo, a liturgia genebrina de Calvino incluía todas as orações: as de confissão de pecado, por iluminação e intercessão. Esta última começava deste modo:

     “Deus Todo Poderoso, nosso Pai celestial, que prometeste nos conceder nossos pedidos no nome de teu muito amado Filho, tu nos ensinaste em seu nome também a nos reunirmos juntos, seguros de que Ele estaria presente em nosso meio a fim de interceder por nós diante de Ti e de obter-nos todas as coisas que concordemos nesta terra em te pedir. Portanto, estando nós em tua presença, dependentes de tua promessa, nós sinceramente te buscamos, ó gracioso Deus e Pai, por causa daquele que é nosso único Salvador e Mediador, para que em tua infinita misericórdia Tu possas perdoar as nossas ofensas, e então elevar nossos pensamentos a ti e atrair nossos desejos em tua direção, a fim de que possamos buscar-te segundo tua santa e razoável vontade.”[5]

     Calvino não apenas escreveu orações para pastores usarem no culto público, mas também orações para que os pais as usassem em casa. De fato, até a introdução do novo hinário Psalter Hymnal em 1987, o hinário da Christian Reformed Church[6] incluía as orações de Calvino para os cultos público e doméstico, além de outras orações para as reuniões da igreja. As orações para as famílias eram em número de quatro: uma para o início do dia, outra para o fim, outra para antes das refeições e outra para depois.

    A reprodução dessas orações nos hinários indica que a prática do ramo continental da tradição reformada teria incluído formalidade nas expressões de devoção tanto na igreja quanto em casa. A imagem que vem à mente da liturgia reformada e do culto doméstico é uma onde os crentes valem-se não apenas da Bíblia, mas também de um outro livro; um que inclua orações para exprimir seu louvor, ações de graças e petições a Deus.

Os Bons Motivos de Calvino

     Imaginar crentes reformados com seus olhos abertos durante a oração por estarem usando um livro de oração é algo que seria considerado por muitos presbiterianos de hoje como um sinal de rigidez cadavérica espiritual. Em muitos círculos presbiterianos, é comum presumir que a verdadeira fé se expressa de modo espontâneo e sem adereços de formalismo (i.e., ortodoxia “morta”).

     Mas Calvino tinha boas razões para escrever orações não apenas para famílias, mas também para pastores. “Eu altamente aprovo que haja uma forma estabelecida”, ele declarou, “da qual os ministros não devem ser permitidos desviar: que primeiro, alguma provisão seja tomada para ajudar a simplicidade e inabilidade de alguns; segundamente, que o consentimento e harmonia das igrejas uma com a outra seja aparente; por último, que a frivolidade caprichosa e leviandade de inovações afetadas possa ser evitada”[7].

     O que é impressionante sobre as razões de Calvino para orações escritas é que elas cabem perfeitamente dentro da amplitude de sentimentos que algumas vezes levam presbiterianos a buscarem expressões de devoção high-church fora das igrejas reformadas. Primeiro, ele admite implicitamente que algumas pessoas oram melhor do que as outras e que o culto, o qual é feito para o prazer de Deus, deveria utilizar os melhores esforços que a Igreja é capaz de produzir. Em outras palavras, o culto não é uma forma de programação inclusiva que permite a todos tempo igual durante a liturgia. É melhor usar orações consideradas superiores, mesmo se feitas pelos santos do passado, do que dar precedência às palavras juntadas pelo pastor atual simplesmente porque a ele foi dada agora a responsabilidade de orar.

     Segundo, Calvino considera uniformidade na expressão litúrgica como uma coisa boa ao invés de um sinal de conformismo, um sentimento que contrasta tanto com a diversidade litúrgica que hoje prevalece entre presbiterianos quanto com a lógica da contextualização cultural, que frequentemente justifica esse tipo de diversidade litúrgica.  Para Calvino, a teologia reformada deveria incorporar certas maneiras litúrgicas, não sendo, portanto, uma substância amorfa que poderia tomar qualquer forma contato que se fosse sincero ou zeloso.

      Finalmente, ele acreditava que orações escritas preveniam o tipo de irreverência e desrespeito tão frequentemente expressados na prática da oração espontânea, especialmente quando sinceridade e paixão são os critérios, não dignidade e respeito.

     Em outras palavras, todos esses motivos sugerem que se Calvino fosse vivo hoje ele estaria buscando uma liturgia high-church juntamente com os presbiterianos desapontados atraídos a Cantuária ou Constantinopla. Isso é um outro modo de dizer que a estrada para a velha Genebra pode oferecer uma forma de culto tão sobre e cuidadosa quanto às das tradições high-church de hoje.

A Ceia como Palavra & Sacramento Visíveis

     Em acréscimo à sua compreensão de oração, a estima que Calvino tem pela Ceia do Senhor dá ainda mais base presbiterianos buscando uma liturgia mais elevada. Todo presbiteriano frustrado pela administração da Ceia de frequência mensal a trimestral na maioria das igrejas presbiterianas e reformadas encontrará um bem-vinda tônico no desejo de Calvino por uma observância semanal. Contudo, ainda mais importante do que o ajuste litúrgico que a observância semanal implica – não apenas em extensão do culto, mas em seriedade – é a compreensão de Calvino da presença real de Cristo na Ceia.

     O aspecto do culto reformado que o distingue dos das demais tradições da Reforma é a centralidade do sermão; e é precisamente essa prática de ter uma exposição longa da Escritura que parece conflitar com o alto apreço pela Ceia e por sua frequente administração. Alguns têm argumentado que, ao tornar a Palavra de Deus tão central na adoração e, assim, mais peso ao sermão, a tradição reformada teria negligenciado a última parte de Palavra e Sacramento.

     Conquanto cristãos presbiterianos e reformados posteriores possam ter deslizado no que diz respeito à Ceia do Senhor, nem Calvino, nem as primeiras gerações de crentes reformados deslizaram. Na verdade, ao invés de ensinar que a Ceia era algo que suplementava o ministério mais central da palavra [pregação], Calvino ensinava que os elementos do Santo Batismo e da Ceia do Senhor eram formas visíveis da Palavra. Assim como o sermão comunicava verbalmente a promessa do perdão de Deus em Cristo, assim também os sacramentos representavam essas mesmas promessas graficamente. Calvino escreveu: “Está errado aquele que pensa que algo mais é-lhe conferido pelos sacramentos do que é oferecido pela palavra de Deus e recebida por verdadeira fé”.

     Concomitantemente, se os sacramentos não apresentam mais do que a palavra pregada, o inverso também pode ser afirmado, ou seja, que o Batismo e a Ceia não conferem nada a menos. Como Brian A. Gerrish argumentou: “os sacramentos, assim como a pregação, são o veículo da auto-comunicação de Cristo, da presença real”. Gerrish acrescenta: “Apenas a mais perversa leitura equivocada poderia concluir que, para Calvino, os sacramentos tinham uma função puramente simbólica ou pedagógica”.

     Por este motivo, é adequado para os que são de tradição calvinista falarem da presença real de Cristo na Ceia do Senhor. A presença de Cristo nos sacramentos decorre da natureza dos símbolos como Calvino os concebia. Apesar de ser possível distinguir entre os símbolos e a coisa simbolizada, Calvino escreveu que isso é uma “distinção sem divisão”. Em outras palavras, é possível distinguir a substância do símbolo, mas é impossível separá-los. E porque o próprio Cristo é a substância da Ceia, o pão e o vinho são nada menos que, nas palavras de Gerrish, “garantias da presença real”.[8]

Peso Litúrgico

     Por este motivo, crentes reformados deveriam também estar confortáveis com a linguagem dos meios de graça. Fique-se claro que a perspectiva low-church dos presbiterianos de hoje lhes faz estremecer com essa noção devido à sua associação com sacerdotalismo. Ainda assim, as primeiras expressões da tradição reformada no século XVI não eram hesitantes em afirmar que Deus usava os meios da Palavra e dos Sacramentos para, nas palavras do Breve Catecismo de Westminster, “comunicar os benefícios da redenção”[9]. Não apenas a Ceia do Senhor nutre e edifica os crentes na esperança do evangelho, mas também, como o Breve Catecismo também explica, os que a recebem dignamente, não corporalmente ou carnalmente, mas por fé, tornam-se “participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos”[10]

     Para se resguardar do sacerdotalismo, a tradição reformada entende que a eficácia dos sacramentos depende unicamente da bênção de Cristo, do trabalho do Espírito Santo e da fé do recipiente. Em outras palavras, a Ceia não confere graça automaticamente, embora algo sempre aconteça, seja em forma de bênção ou maldição.

     Ainda assim, os meios de graça para os reformados são exatamente isso: meios, não apenas símbolos, pelos quais Deus trabalha nas vidas de seu povo. Dada essa compreensão dos sacramentos, a tradição reformada não é oposta a ritos ou cerimônia. Antes, é uma questão de quais ordenanças Deus prometeu usar para a bênção e edificação dos crentes. Os bons rituais são a Palavra e os Sacramentos. Os maus rituais são quaisquer que tenham sido inventados pela sabedoria humana sem sanção na Escritura, por melhor que tenha sido a intenção.

     Também, uma visão elevada da Ceia do Senhor, segundo Calvino, não diminui uma estima elevada da pregação. Na verdade, a leitura de alguns dos primeiros credos reformados apresenta um conceito de pregação que faria a maior parte dos presbiterianos de hoje, que enfatizam uma boa pregação (e negligenciam os sacramentos) e reclamam que sermões de 30 minutos são muito curtos, parecerem dóceis.

     Contrariamente à imagem contemporânea do sermão como recurso de ensino que equipa o laicato para a ideia de “cada membro um missionário”, cristãos reformados dos séculos XVI e XVII encaravam o sermão como um ato divino. Inerente à liturgia reformada é o princípio dialógico que considera o culto uma santa conversa entre Deus e seu povo. Deus inicia por meio da Palavra, crentes respondem em louvor, oração, ouvindo a palavra lida e pregada, e recebendo os sacramentos.

     Todavia, o discurso de Deus não se estende apenas aos elementos do culto onde sua palavra é lida, como na saudação apostólica, as lições, palavras da instituição ou a bênção. O discurso incluis também as próprias palavras do próprio ministro. De acordo com a Segunda Confissão Helvética, capítulo primeiro, “quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por ministros legitimamente chamados, […] a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis”.

     Tal conceito de pregação obviamente aumenta o que está em jogo quando o ministro sobre ao púlpito. O que está em jogo também aumenta quando Heinrich Bullinger escreve mais adiante na Segunda Confissão Helvética que a pregação, não obstante realizada por um homem não regenerado, é a própria palavra de Deus. Aqui a tradição reformada apelou ao argumento de Agostinho contra os donatistas e contendeu que “a voz de Cristo deve ser ouvida, mesmo dos lábios de maus ministros” do mesmo modo que os sacramentos “são válidos para o fiel, embora administrados por ministros indignos” (Cap. 18).

     Nesse arranjo, as funções de pregação eram quase um ritual que, embora obviamente sem uma forma fixa, ainda assim carregavam o peso litúrgico dos outros elementos porque o sermão em si é o momento em que Deus fala a seu povo por meio do seu servo. Pregar não é simplesmente o ato de discurso onde o ministro tenta comunicar uma particularidade moral ou uma verdade doutrinária. É uma atividade santa que Deus ordenou a fim de revelar-se a si mesmo no culto.

Chaves Ministeriais do Reino

     Uma visão elevada da Palavra (pregada) e Sacramentos, por sua vez, leva a uma imagem bem diferente de ministro do que a que prepondera nas igrejas presbiterianas contemporâneas. De fato, o ofício especial da ordenação é o lugar onde o presbiterianismo low-church completa sua volta e reduz o trabalho do pastor a um dos vários ministérios que o povo de Deus conduz em sua caminhada de vida. Aqui, a doutrina do sacerdócio universal do crente e da Grande Comissão foram pervertidos para significar que ministros                 prestam serviços que não são diferentes do que os outros crentes fazem, exceto que pastores fazem isso em tempo integral, enquanto o laicato faz como passatempo.

     Assim, se a pregação realmente é a palavra de Deus e os sacramentos realmente comunicam os benefícios da redenção, logo, as pessoas que desempenham essas funções são claramente diferentes dos outros crentes e deveriam ser separados (ordenados) para desempenhar tão santas tarefas. Além do que, as palavras de Cristo em Mateus 28: 18-20 para ir a todo o mundo e fazer discípulos não é uma base legítima para que todo cristão se creia chamado para ministrar a palavra.

     As instruções de Cristo deixam claro que os meios de discipular as nações são a Palavra (ensino) e Sacramento (batismo). Se os evangélicos ou presbiterianos low-church vão citar a Grande Comissão para desafiar a singularidade do ofício ministerial, então, eles precisam carregar consigo, além de suas bíblias, um pouco de água para realizar batismos.

     Essa é a lógica por trás da compreensão reformada da ordenação, um conceito que acrescenta ainda outra peça ao mosaico do presbiterianismo high-church. A ordenação na maioria das tradições cristãs tem a ver com separação de indivíduos para tarefas especiais dentro do espectro da igreja. Uma vez que o trabalho dos ministros, como o Apóstolo Paulo diz, envolve ser despenseiro dos “mistérios de Deus” (1 Coríntios 4:1), a vocação dos ministros é um chamado santo e sagrado. Eles foram separados para fazer trabalho que é santo, não que é comum.

     Segundo a Confissão de Genebra de 1537, chamado tão elevado requer dos membros da igreja que “recebem os verdadeiros ministros da Palavra de Deus como mensageiros e embaixadores de Deus”, para “dar ouvidos” a esses ministros como ao próprio Cristo, e para considerar a obra dos ministros uma “necessária comissão de Deus na igreja”. Calvino acrescentou que o ministério não era uma “invenção de homens” como se ele tivesse sido criado como um modo sábio de governar a igreja na eventualidade de se encontrar um laicato iletrado ou preguiçoso. Antes, o ministério era “uma designação feita pelo Filho de Deus”, portanto, rejeitar ou desprezar o ministro cristão seria como “rebelar-se e insultar ao próprio Cristo”[11].

     Além das epístolas paulinas, os moldadores da tradição reformada buscaram fundamentação bíblica também em outro conjunto de textos que assusta a maioria dos protestantes low-church: Mateus 16:19 e 18:15 em diante, onde Cristo instrui os apóstolos acerca das “chaves do reino”. A razão óbvia para o temor low-church aqui é o apelo de Roma a essas passagens para justificar supremacia e autoridade papal. Contudo, esse apelo não inibiu os primeiros protestantes, que não estavam dispostos a descartar totalmente o ministério para pode se livrar de reivindicações papais. Da perspectiva deles, a aplicação de Roma desses textos era falha, mas não era falha a ideia de oficiais da igreja possuírem as chaves do reino. Por essa razão, o Catecismo de Heidelberg, pergunta 83, diz que “a pregação do santo evangelho e a aplicação da disciplina cristã para o arrependimento” são as chaves do reino, ambos os quais “abrem o reino do céu para crentes e fecha-o para descrentes”.

     Fique-se claro que os reformados tiraram as chaves do ministério sacerdotal individual e deram-nas à obra declarativa de ministros e presbíteros. Os reformados não evitaram o que encaravam como erros de Roma criando uma concepção de vida cristã onde a membresia numa igreja fosse opcional ou secundária a formas de piedade pessoais ou para-eclesiásticas. Os cristãos presbiterianos e reformados afirmaram que membresia numa igreja é algo que importa muitíssimo, tanto que os teólogos de Westminster escreveram que não há “possibilidade ordinária de salvação” fora da igreja visível (CFW 25.ii).

O Glorioso Sábado do Cordeiro

     A única área onde a tradição reformada obviamente desvia-se de outras tradições high-church é no assunto do calendário litúrgico. Aqui, contudo, está uma das grandes ironias do presbiterianismo contemporâneo, já que suas sensibilidades low-church cultivaram um impressionante apego à versão “leve” do calendário litúrgico, especificamente, observar apenas Natal e Páscoa. Isso é irônico porque se os presbiterianos de hoje que se agarram a seus espetáculos de Natal e reverenciam seus cultos de Sexta-Feira da Paixão tivessem de confrontar as origens high-church de seus dias santos preferidos, eles poderiam mudar de ideia rapidamente.

     Desde seu início, por causa da aplicação do princípio regulador do culto, a tradição reformada se opôs à celebração que requeresse presença de membros da igreja em qualquer outro dia além do Dia do Senhor. O princípio regulador ensina, sucintamente, que a Igreja – corporativamente falando, não membros individuais – só pode exigir aquilo que tem autorização clara e explícita na Palavra de Deus. O calendário litúrgico, conseguintemente, pode até ser um modo inteligente de relembrar aos crentes que o modo como eles contam o tempo é diferente do modo como o mundo conta o tempo. No entanto, por não ter uma autorização clara da escritura, as gerações mais antigas de presbiterianos rejeitaram o calendário como uma invenção humana, logo, ilegítimo para o corpo da igreja, não importando quão sábio ou venerável ele fosse. Indivíduos podem observar alguns dias santos, mas os oficiais da igreja só podem exigir observância do único dia santo consentido pelo Novo Testamento, a saber, o Dia do Senhor.

     Obviamente, a tradição reformada parece incrível neste ponto para outras tradições litúrgicas. Mas a ideia aqui não é convencer outros protestantes high-church que a tradição reformada é a correta ou mesmo plausível, mas, sim, mostrar como o presbiterianismo low-church contemporâneo afastou-se de suas origens reformadas. Como igualmente é o caso com outras expressões litúrgicas de fé, o presbiterianismo high-church não tanto rejeita o calendário litúrgico, mas, antes, oferece-lhe uma alternativa: a observância semanal do Dia do Senhor. Os protestantes reformados têm, portanto, 52 dias santos por ano.

     Nesses dias santos em que cristãos descansam de seus labores semanais e reúnem-se para adorar, eles não apenas seguem o padrão de dias estabelecidos por Deus na semana da criação, mas também aguardam ansiosamente para o santo descanso que espera a todos os filhos de Deus quanto Cristo voltar. Isso é especialmente verdade no próprio culto quando, segundo os reformados creem, a Igreja junta-se espiritualmente no Dia do Senhor, com o restante dos santos e anjos na presença de Cristo, para desempenhar aqueles atos de adoração que prefiguram a ceia de casamento do Cordeiro. Enxergando o Dia do Senhor desse modo high-church, como um lampejo da glória, pode ser útil em evitar o modo hipócrita que frequentemente tem cercado o descanso semanal dos presbiterianos.

     Contudo, todas essas práticas reformadas tornam um presbiteriano em high-church? Ao ver as observâncias que caracterizam as tradições high-church e ao compará-las com as práticas reformadas antigas, deveria ficar ao menos evidente que bons presbiterianos podem nutrir legítima simpatia pelo tipo de piedade que embasa o luteranismo ou o anglicanismo.

Os Puritanos & Liberdade de Consciência

     Independentemente de as práticas reformadas apresentadas até agora serem qualificadas ou não como high-church, elas claramente diferem das práticas modernas da maioria dos presbiterianos. A pergunta permanece: por que há essa disparidade entre as formas mais antigas e contemporâneas da vida eclesiástica reformada?

     O maior obstáculo a um maior reconhecimento da importância da liturgia na vida dos cristãos dentro da tradição presbiteriana é, provavelmente, o legado do puritanismo. Os puritanos corretamente advogavam pelo princípio regulador do culto, ou seja, a ideia de que tudo que for feito no culto público deve encontrar autorização explícita na escritura. Se a bíblia não exige algo, então não se o pode fazer, mesmo que a coisa em questão não seja inerentemente pecaminosa. Então, por exemplo, a bíblia pode não proibir explicitamente um momento de testemunhos durante o culto. Contudo, a não ser que testemunhos encontrem sanção direta na escritura, eles não podem ser incluídos no culto público. O princípio regulador encontra apoio tanto nas tradições reformada continental quanto na anglo-presbiteriana, diferindo, assim, das práticas episcopais e luteranas, onde a bíblia é usada principalmente como um referente negativo (i.e., “o que não pode ser feito?”).

     Em mãos puritanas, o princípio regulador criou oposição ao Livro de Oração Comum, da Igreja da Inglaterra. Fique-se claro que parte dessa hostilidade se originou na hipersensibilidade puritana a qualquer traço de catolicismo existente na liturgia. Além do mais, os puritanos tinham um medo legítimo de uma autoridade eclesiástica centralizada que pudesse forçar um ministrar a fazer orações que atentassem contra sua consciência.

     De fato, uma questão frequentemente esquecida nas batalhas sobre o culto ou disputas sobre o princípio regulador é que a liberdade de consciência intimamente ligada à compreensão calvinista de culto. Não é apenas que os puritanos reconhecessem que a bíblia deva regular tudo o que ocorre no culto público – uma concepção bem estreita – mas também que ela é a única autoridade legítima que pode subordinar uma consciência individual; uma noção que reconhece tanto a legitimidade da diferença de opiniões acerca das circunstâncias do culto como também que o culto público força, intencionalmente ou não, os crentes a se submeterem à liturgia, seja dela participando ou se abstendo. O culto público é algo realizado por todos. Assim, como todos os membros de uma igreja devem participar dos elementos de culto, o melhor modo de compelir a esse envolvimento é demonstrar que a bíblia exige determinada prática.

     Contudo, por mais louvável que tenha sido o esforço puritano de proteger consciências individuais contra leis ilegítimas, seu desenlace foi o caos litúrgico. O raciocínio era que liturgia exigida para todas as congregações era uma interferência contra a liberdade de consciência, principalmente porque a Bíblia não estabelece uma ordem de culto em lugar nenhum. Essa lógica foi especialmente evidente no Diretório de Culto de Westminster, que apenas fazia sugestões sobre formas ao invés de apresentar formas e orações que os ministros poderiam usar. O Diretório foi uma concessão aos congregacionais e independentes, que acreditavam que qualquer liturgia estabelecida cheirava a tirania.

     Tão forte tem sido o desejo presbiteriano e reformado de proteger liberdade de consciência que, mesmo naquelas igrejas onde se tem maior tolerância a liturgias estabelecidas, como na Escócia ou nos Países Baixos, os concílios superiores[12] sempre foram relutantes em exigir que todas as igrejas usassem as formas aprovadas. Assim, as igrejas presbiterianas e reformadas foram em contra a defesa de Calvino por uniformidade litúrgica a fim de proteger os poderes locais de pastores, conselhos[13] e consistórios[14].

Em Desacordo com a Ordem

     Embora admirável, o compromisso presbiteriano com a liberdade de consciência está em desacordo com o igualmente louvável desejo presbiteriano pela unidade da Igreja. Não é difícil que presbiterianos consintam com unidade teológica e eclesiológica, mas eles traçam o limite quando o assunto é uniformidade litúrgica. Por exemplo, é raro o presbiteriano que não conheça o valor de confessar os padrões de Westminster como a norma teológica para se estar em comunhão ministerial. De fato, a maioria dos presbiterianos conservadores orgulham-se de serem teologicamente precisos. Esse confessionalismo presbiteriano é provavelmente o responsável por boa parte da unidade teológica que prevalece nas denominações que enfatizam a aderência à Confissão de Fé de Westminster e aos Catecismo Maior e Breve.

     Semelhantemente, presbiterianos costumam ser bem rigorosos com sistema de governo. Aqui, o Form of Government e o Book of Church Discipline[15] saciam a sede presbiteriana por decência e ordem. E mesmo que esses documentos não tenham referência de versículos bíblicos como os Padrões de Westminster, poucos presbiterianos enxergam as regras que governam os oficiais da igreja como algo pesado. De fato, sem eles, a igreja seria caótica e arbitrária.

     Por que é, então, que, quando o assunto é liturgia do culto, presbiterianos ficam desconfortáveis e permitem a indecência e desordem prevaleça? Se presbiterianos conseguem aquiescer a um conjunto detalhada de documentos confessionais e catequéticos, por que não a um livro de oração comum? Se presbiterianos conseguem se submeter aos rigores de seguir o procedimento adequado em reuniões de conselho e de presbitério, por que não há uma ordem estabelecida de culto? Formas litúrgicas e orações escritas podem subordinar a consciência, mas não mais do que os Padrões de Westminster ou a forma para ordenação de presbíteros da Orthodox Presbyterian Church. Contudo, presbiteriana são tão receosos de formalismo litúrgico que evitam formas comuns de culto.

     A irônica exceção é o Directory for Public Worship da OPC, que inclui uma forma completa com litanias e orações para a dedicação de um novo prédio. Aqui, o mesmo tipo de consentimento voluntário usado para a aderência a credos e sistema de governo precisa embasar o uso presbiteriano e reformado da liturgia. Se os oficiais da igreja voluntariamente consentem em subscrever a confissão e os catecismos da igreja com a ideia de preservar a unidade da igreja, porque seria excessivo acrescentar liturgia aos credos e sistema de governo?

“Terno Derramar do Coração”

     O perigo é que a liberdade de consciência frequentemente é uma cortina de fumaça para uma piedade experiencial que está em desacordo com a formalidade inerente a liturgias prontas. Desde os reavivamentos do século XVIII, que os presbiterianos largamente abraçaram, a tradição reformada na América do Norte em sido afligida com a premissa evangelical de que a devoção cristã sincera não pode ser exprimida nas palavras ou formas concebidas por outro.

     Charles Hodge expressou bem esse sentimento quando ele escreveu que orações escritas “tendem à formalidade e não podem ser um substituto adequado ao terno derramar do coração movido pelo espírito de genuína devoção”[16]. Essa perspectiva entre os presbiterianos cultivou o senso de que se um ministro ou um crente regular usar um livro de oração, ele está simplesmente seguindo um roteiro ou, pior, exibindo uma ortodoxia morta. Foi aqui que o presbiterianismo fez uma curva errada: assumiu-se o jugo do entusiasmo, entusiasmo esse no sentido usado por R. A. Knox quando ele escreveu sobre uma “nova abordagem à religião” onde a fé cristã desloca-se de “uma questão de formas e ordenanças externas” para “um assunto do coração”.[17]

     Obviamente, os presbiterianos não podem culpar exclusivamente em avivalistas como George Whitefield e Jonathan Edwards a afinidade de sua tradição por entusiasmo. Alguns historiadores argumentam que a prática de comunhão por temporadas do presbiterianismo escocês, quando algumas igrejas administravam a Ceia apenas de duas a quatro vezes por ano após uma semana de festividades antecedendo o sacramento, também acrescentaram fermento entusiástico à massa da prática presbiteriana. Essas festividades logo evoluíram para acampamentos e reavivamentos em que a excitação daqueles que recebiam o Espírito soterrava a experiência de receber os benefícios de Cristo na Ceia. (Cf. William De Arteaga, “When Heaven Touches Earth,” Touchstone 10.2, Spring 1997.)

     Por qualquer que tenha sido o modo como chegaram ao modo entusiástico de ser, a lógica anti-formalista do presbiterianismo precisa de escrutínio mais minucioso. A noção de que a religião genuína precisa ser expressa nas palavras do próprio crente conduz a um caminho carismático, não a um caminho presbiteriano. Quando os pentecostais falam em línguas, eles exibem uma piedade logicamente consistente com a exigência evangelical de expressar a fé nas palavras da própria pessoa. No entanto, se presbiterianos reconhecem que usar palavras de outros, como as palavras da escritura ou da confissão de fé, é algo saudável e legítimo, então eles não deveriam ver óbice em usar palavras de terceiros no culto.

     De fato, o caráter comunitário do culto exige tal dependência nas palavras de terceiros, já que a demanda por ordem significa que apenas uma pessoa por vez fala ou ora; e quando todos falam ou oram ao mesmo tempo, é em uníssono. Consequentemente, quando meu pastor ora a oração intercessória, eu estou usando as palavras de outro independentemente de ele estar orando de si ou de algum livro, pois ele está orando em nome da congregação. No caso do canto congregacional, todos na igreja estão se valendo das palavras de um poeta para expressar sua própria adoração a Deus. Ironicamente, portanto, qualquer congregação (inclusive, presbiteriana) não seguindo os padrões pentecostais ou quacres de culto está automaticamente impedindo os crentes de expressarem sua fé em suas próprias palavras durante o culto público. 

Contradição Anticlerical

     A seletividade de presbiterianos neste ponto (não objetando a hinos, mas opondo-se a livros de orações) tem bastante a ver com a contradição da piedade evangelical. A devoção genuína não apenas não pode ser legitimamente expressa nas palavras de outros, mas também a hierarquia implícita em uma coleção determinada de orações é ilegítima. Afinal de contas, o evangelicalismo nos EUA tem um impulso anticlerical que busca remover todas as barreiras (i.e., autoridades) que existem entre um crente e seu Deus. Usar orações aprovadas não apenas põe palavras nas bocas dos crentes, mas também os força a se submeter ao clero que escreveu essas orações.

     Outra vez: o anticlericalismo evangelical não é adequado a presbiterianos, pois os herdeiros espirituais de Calvino usam as palavras dos teólogos de Westminster para sua confissão de fé, portanto, consentindo com a autoridade daqueles ministros e presbíteros, além dos oficiais da igreja que escolheram a confissão e os catecismo como os padrões doutrinários para as denominações presbiterianas americanas. O que deixa os presbiterianos modernos irritados é o prospecto de se submeterem aos oficiais da igreja hoje. Essa submissão parece quebrar o sacerdócio universal de todos os crentes.

     Mesmo assim, se eles reconhecem que Deus aponta autoridades humanas para supervisionar as esferas civil e familiar (i.e., magistrados e pais), por que as autoridades eclesiásticas seriam inerentemente suspeitas? Particularmente, se Deus aponta pastores, mestres e evangelistas para cuidar e nutrir de seu povo, por que os membros da igreja objetariam ao uso no culto das palavras escritas e aprovadas por ministros?

     Frequentemente, presbiterianos se opõem a liturgia porque eles também se recusam a reconhecer a autoridade legítima dos oficiais da igreja. Essa conexão sugere que usar liturgias elaboradas é indiferente para o intuito de fazer presbiterianos moverem-se numa direção mais high-church; faz-se também necessário o reconhecimento apropriado da obra e autoridade do sagrado ministério.

Um Malfadado Estado de Alerta

     O abandono das formas litúrgicas por experiências mais emocionais, algo tão característico do presbiterianismo low-church, é um afastamento significativo do caráter da Reforma Protestante. Isso põe presbiterianos na situação estranha de tentarem acomodar João Calvino e João Wesley. O que muitos presbiterianos modernos parecem esquecer é que a Reforma foi apenas isso: uma Reforma, não um reavivamento.

     É possível diferenciar entre os dois usando o artigo 29 da Confissão Belga para determinar se a igreja usa as formas corretas, especificamente se a Palavra está sendo fielmente pregada, se os Sacramentos estão sendo fielmente administrados e se a disciplina está sendo corretada aplicada. Assim como todos os demais credos reformados dos séculos XVI e XVII, a Confissão Belga nada informa sobre como identificar um “reavivamento” (grande número de novas conversões e maior sinceridade da parte dos crentes). Para os reformadores, a questão não era se uma igreja era viva ou morta.

     O conceito evangelical de ortodoxia morta era virtualmente desconhecido até os reavivamentos do século XVIII. Para os reformadores, a questão era se uma igreja era falsa ou verdadeira. Para Lutero, Calvino e Cranmer, a maneira de distinguir a igreja verdadeira era observar as formas mencionadas acima no culto e o modo pelo qual a ordenação acontecia. Esses assuntos não eram ambíguos: ou uma oração, sermão ou o culto de ordenação conformavam-se ao ensino da escritura ou não se conformavam (concedo aqui que cristãos episcopais, luteranos e reformados liam o que a bíblia dizia sobre esse assunto de modo diferente algumas vezes).

     Determinar se uma igreja ou pessoa era espiritualmente viva, reavivada ou morta não era algo tão certo. Infelizmente, desde o Primeiro Grande Avivamento, presbiterianos têm buscado atentar mais à obra invisível do Espírito Santo do que à obra visível da Igreja, um estado de alerta malfadado à frustração devido aos movimentos misteriosos do Espírito.

A Igreja como Mãe

     A resposta ao presbiterianismo low-church não é a introdução de coletas, formas para administração da Ceia do Senhor, nem a recitação semanal do Credo. Por mais necessária e edificante que o culto litúrgico seja, os presbiterianos low-church não reconheceram sua virtude a não ser que, ironicamente, passem por uma mudança de coração. A liturgia high-church exige uma piedade high-church. O mesmo vale para sistema de governo high-church e confessionalismo high-church.

     Em outras palavras, presbiterianos precisam aprender que o ministério da Igreja é um meio de graça. Segundo o Breve Catecismo de Westminter (P. 88), “os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos são as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração, os quais todos se tornam eficazes aos eleitos para salvação.” Não é luxo cuidar para que as palavras corretas e apropriadas sejam empregadas nas ordenanças ou rituais usados no culto, nem o é selecionar que homens são ordenados ao ministério. O próprio Deus prometeu usar e abençoar as orações, canções, sermões e formas sacramentais de ministros legitimamente ordenados.

     Para muitos protestantes americanos, frequentemente a igreja é vista como apenas mais uma expressão de devoção genuína sentida no coração, uma escolha que é equivalente às formas pessoais de devoção ou a iniciativas para-eclesiásticas. Fique-se claro que a igreja reunida em adoração e liderada por ministros é o local onde os crentes coletivamente expressam seu louvor e adoração a seu Pai Celestial, portanto, eles deveriam tomar muito cuidado em como se expressam ao soberano Senhor do universo. Mas a igreja também é o lugar onde Deus, por meio de seus subpastores, ministra a seu povo, especialmente na Palavra lida e pregada e na administração dos Sacramentos, quando Deus recorda seu povo do perdão que lhes deu e edifica-os em santidade e conforto. 

     Uma visão elevada da igreja, de sua adoração, de seu ministério, e de seu credo, requerem, então, uma piedade que reconheça a dependência do crente nos meios que Deus ordenou para abençoar seus filhos. Se a igreja é simplesmente um modo de exibir nossa devoção ou zelo, então as formas e os ministros podem se tornar um fardo, mas se a igreja é o local aonde vamos para ouvir as boas novas de homens devidamente ordenados, então a liturgia e o clero tornam-se, pela bênção do Espírito Santo, a seiva da peregrinação e devoção do crente.

     Em outras palavras, presbiterianos precisam recuperar a noção da Igreja como mãe. Essa ideia é alienígena para muitos dos herdeiros teológicos de Calvino, apesar de o reformador de Genebra ter escrito explicitamente sobre as capacidades de nutrir da igreja. No Livro IV de suas Institutas, Calvino afirma que a imagem da igreja como mãe expressa quão importante a obra dela é para os filhos de Deus. “Não há outro ingresso à vida a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos” (Institutas, Livro IV. 1.4). Calvino ensinou, juntamente com uma grande parte da tradição reformada original, que o crente sem a Igreja definharia e morreria, assim como um bebê sem sua mãe.

     Assim como Deus proveu para os israelitas quando vagavam pelo deserto, a Igreja sustenta o cristão em sua peregrinação por meio de seus ministros, ritos de pregação e sacramentos, cuidado e instrução. Os meios de graça que Deus ordenou para a Igreja ministrar são como o maná e as codornizes que Ele deu para os israelitas comerem até que chegassem à terra prometida.

     Contudo, para reconhecer a igreja como mãe, presbiterianos precisam se lembrar se seu estado de peregrinação. As chances são de que uma estima empobrecida da Igreja resulte diretamente de uma estima excessivamente elevada de nós mesmos. A visão elevada que Calvino tinha da Igreja e do cuidado que ela presta estava ligada a uma visão sóbria da necessidade que os crentes têm de serem assistidos e edificados na fé.

     A atitude comum dos presbiterianos low-church para com a Igreja notavelmente evidente em sua observância pouco frequente da Ceia do Senhor. A maioria das congregações celebram o sacramento, no máximo, doze vezes por ano. O que isso diz sobre a piedade presbiteriana? Alguns podem responder que essa baixa frequência reflete uma visão elevada da ordenança, uma vez que observá-lo semanalmente poderia encorajar indiferença e desinteresse. Mas se poderia dizer igualmente que tal irregularidade comunica a impressão de que nós não precisamos da graça que vem da Ceia do Senhor, que, como crentes, somos relativamente fortes, então a Palavra pregada e lida seria suficiente para recarregar nossas baterias espirituais.

“Alunos por Toda Nossa Vida”

     Assim, a estima que se tem pela Igreja está ligada à avaliação que se faz da vida cristã. Neste caso, parece que os presbiterianos low-church adotaram a atitude dos israelitas quando reclamaram de sua dieta no deserto. A diferença é que os presbiterianos não estão tanto resmungando contra a monotonia do alimento, mas sim seguindo uma nova dieta que lhes nega o pão e o cálice da vida eterna três semanas em cada quatro. Se os israelitas tivessem recusado o maná com tanta frequência, eles teriam perecido muito antes de chegarem às margens do Jordão.

     Uma vez que o único modo de os presbiterianos terem uma visão elevada da Igreja é recuperar a ideia de Calvino da Igreja como mãe, também será preciso abandonar a noção de Igreja como personal trainer. Para gente demais na tradição reformada, o conceito de vida cristã é um de constante movimento: Deus exige o desempenho de muitas boas obras, de estudos bíblicos no meio da semana ao desenvolvimento de uma visão cristã das artes, com a igreja tendo como tarefa simplesmente fornecer apoio motivacional e programas para desenvolvimento pessoal. A verdadeira obra da Igreja, portanto, seria o que o povo de Deus faz durante a semana, sendo o domingo uma espécie de fornecimento de educação continuada.

     Entretanto, essa visão da igreja e da vida cristã não reconhece quão necessitado e frágil o povo de Deus é, nem quão perigosa é a batalha que peregrinos cristãos devem lutar. Menos confiança em nossas habilidades e um maior reconhecimento de nossas enfermidades nos levariam a uma visão diferente acerca da igreja. Se presbiterianos continuarem a pensar na igreja como um lugar para encontros motivacionais, nem toda a formalidade e liturgia do mundo os faria high-church, pelo contrário, tiraria o fator estimulante dos encontros, que supostamente apimentam a vida cristã.

     A única coisa que talvez quebre a mentalidade low-church é a instrução de Cristo em João 6. Nessa passagem, Cristo tentou redirecionar os desejos terrenos de seus seguidores para a fome pelo Pão da Vida. Para esse fim, Ele lhes disse que o maná que os israelitas receberam no deserto prefiguravam não o pão e o peixe com que Ele alimentara os cinco mil, mas seu próprio corpo e seu próprio sangue. “Eu sou o pão da vida”, ele disse. “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (48-51). Cristo continuou: “pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida” (55).

     Muitos dos discípulos reagiram a esse ensinamento destacando como ele era difícil: “quem o pode ouvir?” (60). Para presbiterianos low-church, aprender sobre o ministério da Igreja é semelhantemente difícil; quase tão difícil quanto superar os últimos 250 anos de história presbiteriana nos Estados Unidos.

     Contudo, se Calvino estava correto, se “nem sofre nossa fraqueza sermos despedidos da escola [igreja] até que alunos hajamos sido pelo curso todo da vida”, se de fato “fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação” (Institutas, Livro IV. 1.4), talvez seja hora de os presbiterianos começarem a desfazer seu passado e reaprenderem sua tradição. A saúde e ordem da doutrina e da igreja que tanto amam de fato dependem disso

[1] [N. do T.]: Em tradução livre, Evangélicos na Trilha para Cantuária

[2] Inserir hyperlink para livro em PT-BR: http://www.ky1.com.br/index.php?route=product/product&product_id=969

[3]N. do T.: O título original do livro de 1855 é Eutaxia, or the Presbyterian Liturgies, mas Hart usa apenas Presbyterian Liturgies.

[4] Directory for Public Worship

[5] The Presbyterian Liturgies: Historical Sketches (1855; Grand Rapids: Baker Book House, 1957), pp. 38. (tradução livre)

[6] N. do T.: Denominação americana de origem holandesa

[7] The Presbyterian Liturgies: Historical Sketches (1855; Grand Rapids: Baker Book House, 1957), pp. 23. (tradução livre)

[8] B.A. Gerrish. John Calvin and the Reformed Doctrine of the Lord’s Supper. McCormick Quarterly, Chicago, v. 22, n. 2, pp. 8-9, 1969.

[9] N. do T.: Pergunta 85 do Breve Catecismo de Westminster.

[10] N. do T.: Pergunta 96 do Breve Catecismo de Westminster.

[11] AINSLIE, J. L. The Doctrines of Ministerial Order in the Reformed Churches of the Sixteenth and Seventeenth Centuries.  Edinburgh: T. & T. Clark, 1940, pp. 8–9.

[12] N. do T.: Adaptado ao presbiterianismo brasileiro. No original, “assembleias superiores”.

[13] N. do T.: Adaptado ao presbiterianismo brasileiro. No original, “sessão”.

[14] N. do T.: Nome dado ao conselho nas igrejas de herança neerlandesa.

[15] N. do T.: Assim como a IPB possui seu Manual Presbiteriano, onde estão reunidos seus documentos governantes, a OPC também possui seu Book of Church Order, onde estão reunidos o Form of Government (equivalente legal à Constituição da IPB), o Book of Discipline (equivalente legal ao Código de Disciplina) e o Directory for the Public Worship (equivalente legal ao nosso Princípios de Liturgia).

[16] Hodge, “Presbyterian Liturgies,” in The Church and Its Polity (London: T. Nelson, 1879), p. 162.

[17] Knox, Enthusiasm: A Chapter in the History of Religion (Oxford: Clarendon Press, 1950), p. 2.

Darryl G. Hart é presbítero da Orthodox Presbyterian Church, servindo atualmente no conselho da Hillsdale OPC. Autorou o livro Secular Faith, dedicado a J. Gresham Machen, tem passagens como docente ou diretor em seminários (Westminster California e Westminster Philadelphia) e faculdades cristãs (Wheaton College), inclusive onde hoje leciona história (Hillsdale College).