Pedro Abelardo Sobre a Obra de Porfírio

por Pedro Abelardo

de Lógica Para Iniciantes

    Para aqueles dentre nós que se iniciam no estudo da lógica digamos algumas palavras sobre as suas propriedades, e comecemos por tratar do gênero a que ela pertence, ou seja, a filosofia. Boécio não denomina qualquer ciência filosofia, mas só aquela que consiste no estudo das coisas mais elevadas. De fato, não damos o nome de filósofos a quaisquer estudiosos, mas apenas aos sábios cuja inteligência se aprofunda na consideração das questões mais sutis. Boécio distingue três espécies de filosofia, isto é, a especulativa, que investiga a natureza das coisas; a moral, que considera a questão da vida honesta; e a racional, denominada lógica pelos gregos e que trata da argumentação. Alguns autores, entretanto, separam a lógica da filosofia ao afirmar que ela constitui mais um instrumento, de acordo com Boécio, do que uma parte da ciência filosófica, uma vez que todas as outras disciplinas dela se utilizam de alguma forma, quando usam os seus argumentos para fazerem as próprias demonstrações.

     Quer se trate de uma investigação sobre o mundo físico, quer de um assunto moral, os argumentos procedem da lógica. O próprio Boécio rebate essa opinião com afirmar que nada impede a lógica de ser, ao mesmo tempo, instrumento e parte da filosofia, tal como a mão é, ao mesmo tempo, instrumento e parte do corpo humano. Às vezes, a própria lógica parece ser instrumento de si mesma, quando demonstra com os seus argumentos uma questão pertencente à sua área, como, por exemplo, a seguinte: o homem é uma espécie do gênero animal. Contudo, nem por isso ela é menos lógica, ao servir de instrumento da lógica. Assim, também, ela não é menos filosófica por ser instrumento da filosofia. O próprio Boécio também a distingue das duas outras espécies de filosofia pelo seu fim próprio que consiste em compor argumentações. Ainda que o filósofo da natureza componha argumentações, não é a filosofia natural que o instrui quanto a isso, mas apenas a lógica. Por essa razão lembra, ainda, Boécio, a respeito da lógica, que ela foi organizada e reduzida a certas regras das argumentações, para que não arrastasse ao erro aqueles que são excessivamente vacilantes devido aos falsos raciocínios, quando pareça construído com os seus argumentos o que não se acha na natureza das coisas, e quando, às vezes, se inferem coisas que são contrárias nas suas condições, como neste caso: Sócrates é corpo; ora, o corpo é branco; logo, Sócrates é branco. Ou de outro modo: Sócrates é corpo; ora, o corpo é preto; logo, Sócrates é preto.

     Na redação de um tratado de lógica impõe-se necessariamente certa ordem no tratamento dos assuntos, pois, uma vez que as argumentações se compõem de proposições, e já que estas são formadas por termos, quem escreve uma obra completa de lógica precisa primeiramente tratar dos simples termos, depois, das proposições e, por fim, coroar o seu estudo com o exame das argumentações, tal como o fez o nosso príncipe Aristóteles, que escreveu as Categorias sobre a doutrina dos termos, o Peri Hermeneias sobre as proposições, e os Tópicos e os Analíticos sobre as argumentações. Esta obra de Porfírio, conforme o esclarece a indicação do título, constitui uma introdução às Categorias de Aristóteles, mas, como o próprio autor demonstra posteriormente, ela é necessária para toda a arte da lógica. Passaremos a examinar agora, de modo breve e preciso, a intenção do autor, a matéria de que trata, o método seguido, a utilidade do estudo, e a parte da dialética à qual se subordina esta ciência. A intenção é principalmente instruir o leitor nas Categorias de Aristóteles, de tal modo que ele se torne capaz de compreender mais facilmente as coisas que são aí tratadas. Por isso, passa a examinar os cinco temas que constituem a sua matéria, a saber, o gênero, a espécie, a diferença, o próprio e o acidente, pois julgou útil o conhecimento dessas noções para as Categorias, uma vez que a respeito delas se discute em quase todo o curso das Categorias. Essas noções que dissemos ser em número de cinco, e que se denominam gênero, espécie, etc., podem ser referidas, de certo modo, às coisas por elas significadas. Ele explica convenientemente o significado desses cinco nomes de que se serve Aristóteles, para que, ao se chegar às Categorias, não se ignore o que deve ser entendido por esses nomes. Pode-se, também, lidar com todos os significados desses nomes como se fossem cinco porque, embora possam ser tomados individualmente como infinitos — pois existem, com efeito, infinitos gêneros, assim como espécies, etc. —, entretanto, como se disse, todos são considerados como cinco noções, uma vez que todas as coisas são tomadas de acordo com as cinco propriedades: todos os gêneros segundo o que constitui os gêneros, e assim para os outros. É da mesma forma que as oito partes da oração são consideradas segundo oito das suas características, embora sejam infinitas quando tomadas individualmente.

     O método seguido no tratamento do assunto consiste em examinar em separado, primeiramente, cada uma das noções nos seus diferentes aspectos, passando-se, depois, a um conhecimento maior delas por meio da consideração das suas propriedades e dos seus caracteres comuns. A utilidade da obra, como ensina o próprio Boécio, é principalmente contribuir para o conhecimento das Categorias. Mas ela se exprime de quatro formas, como o demonstraremos mais adiante, com o maior empenho, quando o próprio autor tratar do assunto. Realmente, percebe-se de imediato a razão pela qual o presente estudo pertence à lógica, se, de início, distinguirmos diligentemente as partes dessa ciência. De acordo com Cícero e Boécio, a lógica se compõe de duas partes, a saber, a ciência de descobrir argumentos e a de julgá-los, isto é, de confirmar e comprovar os argumentos descobertos. De fato, duas coisas são necessárias a quem argumenta. Primeiro, que encontre os argumentos por meio dos quais possa convencer e, depois, que saiba confirmá-los, se alguém os atacar, afirmando que são defeituosos ou insuficientemente firmes. Daí ensinar Cícero que a descoberta é, por natureza, a primeira parte. Esta ciência das Categorias interessa às duas partes da lógica mas, principalmente, à descoberta. Ela própria, aliás, é uma parte da ciência da descoberta. Com efeito, como se poderia deduzir um argumento de um gênero, de uma espécie ou de outras categorias, a menos que estas aqui tratadas fossem conhecidas? Donde o próprio Aristóteles introduzir a definição delas na sua obra sobre os Tópicos, quando trata dos seus “lugares”, como o faz Cícero na sua obra homônima. Mas por isso que o argumento se confirma com as próprias razões das quais foi tirado, esta ciência está relacionada com o juízo. Assim como se tira um argumento da natureza do gênero ou da espécie, assim a partir dela mesma se confirma o argumento extraído. Ao se considerar, por exemplo, quanto a natureza da espécie no homem pertença ao gênero animal, descobre-se imediatamente nela o argumento para provar que o homem é um animal. Se alguém criticar o argumento, mostro imediatamente que ele é procedente, indicando em ambos a natureza da espécie ou do gênero, a fim de que, a partir das mesmas relações desses termos, se encontre o argumento e se confirme o que foi descoberto.

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