O Impacto Literário da Versão Autorizada

por C. S. Lewis

tradução de Vitor Beuren

Tradução alguma é capaz de preservar inalteradas as qualidades de seu original. Por outro lado, exceto quando se trata de poesia lírica, o efeito literário de qualquer boa tradução deve-se mais ao original do que a qualquer outra coisa. Isso é especialmente verdadeiro na narrativa e na instrução moral. Quando os originais são hebraicos, isso vale num grau incomum, inclusive para poesia lírica, porque o paralelismo da forma é uma qualidade traduzível. Portanto, não há possibilidade de ponderar sobre o impacto literário da Versão Autorizada à parte daquele da Bíblia em geral. Exceto em algumas passagens nas quais a tradução é ruim, a Versão Autorizada deve ao original sua matéria, suas imagens e suas figuras. Nossa experiência estética durante a leitura de qualquer uma das grandes histórias do Antigo Testamento ou, digamos, da libertação de S. Pedro e do naufrágio de S. Paulo, depende apenas em pequena parte do tradutor. É por isso que espero ser escusado por prefaciar o que tenho a dizer sobre a sina literária de nossa Bíblia Inglesa por algumas considerações sobre a sina literária da Bíblia antes que ela se tornasse inglesa. O que é comum, mesmo do ponto de vista literário, nos originais bem como em todas as versões derivadas é, afinal, muito mais importante do que aquilo que é peculiar. E quanto mais voltamos na história, maiores são as chances de sermos curados de nossa perigosa suposição, embora seja ela natural, de que um livro que sempre foi elogiado sempre foi lido da mesma maneira ou valorizado pelas mesmas razões. O Homero de Virgílio era muito diferente daquele de Chapman, o de Chapman do de Pope, o de Pope do de Andrew Lang e o de Andrew Lang daquele do Sr. Rieu.

Num certo sentido, “a Bíblia como literatura” não existe. É um acervo de livros tão amplamente variados em período, tipo, linguagem e valor estético, que nenhuma crítica comum pode aplicar-se-lhes. Ao unir esses textos heterogêneos, a Igreja não foi guiada por princípios literários, e o crítico literário poderia considerar essa união como um acidente teológico e histórico irrelevante para seu próprio ramo de estudos. Mas quando passamos dos originais a qualquer versão feita por um indivíduo, ou a uma que carregue a marca de uma era, uma certa aparência de unidade desponta. Talvez a Septuaginta, a Vulgata, a Bíblia de Lutero ou a Versão Autorizada possam cada uma ser considerada como um livro. E na mente daqueles que usaram essas traduções, a impressão, ou, se quiser, a ilusão de unidade interna foi aumentada pela unidade do contexto litúrgico em que foram ouvidas, bem como pela doutrina da Inspiração. Uma crença na inspiração estritamente verbal tornará, de fato, toda a Escritura num livro de um único autor. Portanto, Donne, em seu Septuagésimo Nono Sermão, faz, um tanto comicamente, um julgamento elogioso do estilo do Onipotente, assegurando-nos que “o Espírito Santo é um autor eloquente, veemente e abundante, ainda que não luxuriante”.

A Bíblia considerada dessa maneira, por bem ou mal, como um único livro, foi lida com quase todos os propósitos de maneira mais diligente do que por prazer literário. No entanto, certas alegações a esse respeito, inclusive sobre este ponto, podem ser apanhadas de épocas mais antigas.

A mais remota apreciação literária que conheço é também aquela mais moderna em espírito. Quando Longino2 louva o autor de Gênesis ­em sua língua, “o legislador dos judeus” pela sublime concepção, ele parece expressar uma experiência literária muito parecida com a nossa. Gênesis é colocado junto a Homero e, em alguns aspectos, preferido a ele. A Bíblia é aqui classificada entre os clássicos por motivos puramente seculares. Mas seria difícil citar paralelos precisos nas épocas que se seguem.

O erudito Edgar de Bruyne, em seu Études d’esthétique médiévale (1946), reuniu uma quantidade considerável de evidências sobre a apreciação literária das Escrituras na Idade Média. Elogios não faltam; mas certamente encontramo-nos em um mundo alheio. No limiar desse período encontramos a curiosa declaração de Sto. Agostinho de que a Bíblia usa o gênero humillimum loquendi3. Se isso fosse referência específica ao estilo, se os Salmos e os Profetas parecessem-lhe usar “a linguagem mais baixa”, seria algo quase inexplicável. Quase, mas não totalmente; a grande máquina ribombante da retórica latina pode, às vezes, ensurdecer o ouvido humano às demais literaturas. Mas, a partir do contexto, suponho que Sto. Agostinho esteja referindo-se a algo deveras diferente àquela aparente ingenuidade ou simplicidade do sentido literal que ofendera-lhe até que lhe ensinaram que era ela apenas o invólucro externo a ocultar o sacramentorum altitudo4. Essa distinção entre o sentido literal ou histórico e os sentidos alegóricos seja como forem classificados pelos diferentes doutores é um fator fundamental em toda a leitura medieval da Bíblia. É verdade indubitável, e nisso deve-se insistir, que nenhuma superestrutura de alegorias foi autorizada a anular a verdade do sentido literal. Hugo de S. Vitor insiste com seus alunos a necessidade de dominar primeiro o sentido literal. “Penso eu”, ele escreve, “que nunca serás perfeitamente arguto com a Alegoria a menos que esteja, antes de tudo, fundamentado na História”5. Contudo, essa mesma passagem revela como a exegese medieval inevitavelmente menosprezava o que deveríamos considerar como a qualidade literária real do  texto. Está claro que Hugo espera que seus alunos corram pelo sentido histórico com muita rapidez e superficialidade. Noli contemnere minima haec6, acrescenta, “não desprezeis estas pequenas coisas”. Se você houvesse desprezado o alfabeto, seria agora incapaz de ler. Estimar a história de José e seus irmãos ou de Davi e Golias como meramente o alfabeto, uma preliminar necessária aos estudos superiores e mais agradáveis, pode ter sido perspicaz, mas era muito diferente da nossa. Portanto, não nos surpreendemos ao encontrá-lo dizendo que a Escritura é como um favo de mel. Ela parece seca do lado de fora per simplicitatem sermonis, mas é dulcedine plena do lado de dentro7. Observe como o simplicitas sermonis ecoa o humillimum genus loquendi de Sto. Agostinho. Novamente, a Escritura pode ser comparada a uma lira. Os sentidos espirituais são como as cordas; o sentido histórico é como a madeira que não soa mas mantém as cordas juntas8.

Não desejo, de forma alguma, ridicularizar a doutrina dos múltiplos sentidos. Nossa própria época, mergulhada no simbolismo sonhador e no trabalho alegórico ou semi-alegórico de escritores como Kafka e Rex Warner não olhará para essa doutrina com ufanismo. Podemos prever um renascimento do sentido alegórico nas críticas bíblicas. Mas será provavelmente perigoso, e penso que era também perigoso na Idade Média, apreciar os Livros Históricos como uma simples narrativa heroica.

Sto. Tomás de Aquino lança um pouco mais de luz sobre as referências pelas quais já passamos quanto a “baixeza” ou “simplicidade” da Bíblia. Ele explica por que as Escrituras expressam verdades divinas não usando apenas imagens de meros corpos, mas igualmente com de imagens de corpos vis em vez de nobres9. Assim acontece, diz ele, para libertar a mente do erro, para reduzir o perigo de qualquer confusão entre o símbolo e a realidade. Uma resposta digna de um profundo teólogo. Ao mesmo tempo, a passagem da declaração mostra-nos atitudes deveras hostis à apreciação estética do texto sagrado. Pareceria, ele diz, que as Escrituras não devem usar metáforas. Pois o que é apropriado ao tipo mais baixo de aprendizado (infimae doctrinae) não parece adequado à rainha das ciências. A metáfora é apropriada à poesia, e a poesia é a mais baixa de todas as formas de aprendizado est infima inter omnes doutrinas. A resposta, tanto quanto nos interessa aqui, é que a poesia e as Escrituras usam a metáfora por razões bem diferentes; na poesia para o deleite e nas Escrituras propter necessitatem et utilitatem10. Onde um crítico do século XIX diria que a Escritura seria ela mesma a mais elevada poesia, Sto. Tomás afirmaria que a mais alta e amais baixa doctrinae têm, paradoxalmente, um ponto em comum, mas claramente por razões diferentes.

De outros escritores medievais, principalmente Ulric de Estrasburgo, de Bruyne reuniu passagens que parecem, talvez ilusoriamente, aproximar-se do ponto de vista moderno. Em geral, porém, não acho que exageramos se dissermos que a apreciação medieval da Bíblia é separada da moderna por um amplo abismo.

Se a abordagem medieval é estranha, aquela do Renascimento parece-me às vezes repugnante. Chegamos à era do ciceronianismo, do humanismo, daquela mortal dignidade clássica que obscureceu e distorceu (juntamente com muitas outras coisas) os próprios clássicos. Era uma época na qual Scaliger taxaria Homero com vulgaridade e reclamaria que o lamento de Andrômaca por Heitor cheirava àquele de uma mulher grosseira plebeiam mulierculam11. Onde uma estética como essa prevalecia, a grandeza simples de reis e juízes e dos evangelhos tinha poucas chances de ser valorizada pelo seu próprio mérito. Por isso, Vida achava que a história da Paixão poderia ser aperfeiçoada pelo ouropel de sua Christiad. Em certo sentido, claro, isso é apenas uma correspondência literária às pinturas religiosas da época; ali, vastos salões vitruvianos erguem-se como pano de fundo para “cenas sagradas, abstratas e profundas”. Deixo para outras pessoas um problema que não consegui resolver por que obras com tal teor ofendem muito mais em palavras do que em tinta? – e sigo nosso assunto imediato, reconhecendo o efeito desse movimento inclusive num homem tão distinto como Sir Thomas More. No seu tratado Sobre a Paixão, ele arrisca-se a colocar palavras na boca de Nosso Senhor. A coisa já havia sido feita antes. Na Imitação, isso foi feito de modo a não apenas satisfazer à piedade, mas também ao nosso senso do estilo dominical. Mas More toma as palavras no Getsêmani, “Esta é a vossa hora e o poder das trevas”, e parece pensar que elas podem se fortalecer ao serem expandidas para o seguinte:

“Este é o breve tempo que se vos dá, e a liberdade concedida às trevas, para que possais agora na noite aquilo que até então jamais vos foi permitido sucitar em pleno dia, qual monstruosas aves vorazes, qual rasga-mortalhas e bruxas, qual morcegos, crias de coruja, corvos da noite e pássaros do lago infernal, andas com vossos ferrões, vossas garras, vossos dentes e vossos esganiçados guinchos afrontosos, mas tudo em vão, assim, nas trevas, a pairar sobre mim.”12

Devo avisar-lhes que estou citando uma tradução, a da neta de More.13 Mas se alguém ler o original em latim e preferi-lo à versão em inglês, ficarei surpreso. Não estou sugerindo, obviamente, nem por um instante, alguma falha espiritual. A questão é sobre o gosto de More. De fato, quanto mais o reverenciamos como um homem, mais impressionante torna-se o exemplo. Até um homem tão imerso quanto ele no espírito dos discursos dominicais poderia ser, devido à retórica humanista, tão ensurdecido à majestade de seus estilos.

Com os primeiros tradutores protestantes, temos alguns sinais de uma mudança de abordagem. Eu gostaria de tomar todas as precauções para não exagerar. A história da Bíblia em inglês, de Tyndale até a Versão Autorizada, não deve nunca separar-se por muito tempo daquele movimento europeu, e de modo algum exclusivamente protestante, do qual fez parte. Ninguém pode escrever essa história sem pular de um lado para o outro, a todo momento, as fronteiras nacionais e religiosas. Terá que ir da Bíblia Hebraica de Soncino (1488) à Gramática Hebraica de Reuchlin (1506), depois a Alcala pelo ilustre Poliglota (1514), do cardeal Ximenes, e ao norte pelo Novo Testamento de Erasmo, do mesmo ano, e depois a Lutero pelo Novo Testamento Alemão, em 1522, e retomar o hebraico novamente com a Gramática de Munster em 1525, e ver Lutero trabalhado por Zuínglio e outros na Bíblia de Zurique de 1529, e olhar para as duas versões francesas de ’34 e ’35, e de jeito algum negligenciar as novas traduções para o latim de Pagnino (28) e Munster (34-35). Tal é o pano de fundo contra o qual Tyndale, Coverdale, Genebra e Reims devem ser colocados. Pois quando compararmos as versões, descobriremos que apenas uma porcentagem muito pequena de variantes é feita por razões estilísticas ou mesmo doutrinárias. Quando os homens se afastam de seus predecessores, geralmente é porque afirmam ser melhores hebraístas ou melhores no grego. O avanço internacional da filologia carrega-os, e aqueles que são divididos pelos mais amargos ódios teológicos aprendem alegremente uns com os outros. Tyndale aceita correções de More; Rheims aprende em Genebra; expressões passam de Rheims a caminho de Genebra à Versão Autorizada. Querendo ou não, toda a cristandade colabora. A Bíblia Inglesa é o ramo inglês de uma árvore européia.

No entanto, apesar disso, há algo novo sobre Tyndale; por bem ou mal, uma grande simplificação da abordagem. “A Escritura”, ele escreve, “fala da maneira mais ordinária. Sejas diligente, portanto, para que não caias no engano da curiosidade.”14 Nas palavras “maneira mais ordinária” reconhecemos um eco do humillimum genus de Agostinho e do simplicitas sermonis de Hugo de S. Vitor. Essa rusticidade ou mesquinhez que achamos tão difícil discernir na Bíblia é ainda evidente para Tyndale. A novidade é a rejeição dos sentidos alegóricos. Essa rejeição ele compartilha com a maioria dos reformadores e até, no que diz respeito a partes da Bíblia, com um papista humanista como Colet; e não cabe a mim decidir se isso marcou um avanço ou um retrocesso na teologia. O interessante não é a negação das alegorias por Tyndale, mas sua atitude positiva para com o sentido literal. Ele ama-o por sua “ordinariedade”. “Deus é um Espírito”, escreve ele, “e todas as suas palavras são espirituais. Seu sentido literal é espiritual.”15 Isso é muito característico da perspectiva de Tyndale. Para ele, tal como o sentido literal de Deus é espiritual, assim toda a vida é religião: limpar sapatos, lavar a louça, nossas funções naturais mais humildes, são todas “boas obras”16. A vida religiosa, tecnicamente assim denotada, não ganha-nos “salões mais elevados no céu… do que uma prostituta dos bordéis ganharia (se ela arrepender-se)”17. Tal atitude parece certamente mais favorável à apreciação literária da maioria das Escrituras do que as que vimos antes. Por outro lado, Sr. Gavin Bone, cuja perda ainda lamentamos em Oxford, disse abertamente que Tyndale “odiava literatura”.

Isso baseia-se na sua feroz condenação do romance medieval18; uma característica que é humanista e puritana. Mas não acho que ele odiasse literatura. Quando ele fala de seu próprio trabalho como tradutor, soa como um homem com senso de estilo; como quando ele diz que o hebraico e o grego traduzem-se bem para o inglês, enquanto “deves esquadrinhar o latim como uma bússola, e não obstante terás enorme trabalho para traduzi-lo com bom gosto, imputando-lhe a mesma graça e doçura”19. Mais importante ainda é a evidência de seus próprios trabalhos originais.

Eu gostaria de ter tempo para divagar sobre essas obras. A fama de Tyndale como escritor inglês foi injustamente ofuscada, tanto pela maior fama de More, quanto por sua própria reputação como tradutor. A mim ele parece o melhor escritor de prosa de sua época. É inferior a More no que pode ser chamado de entrelinhas da mente, bem como (é claro) no humor. Em todos os outros aspectos, ele o ultrapassa; na simplicidade, na lucidez e, sobretudo, na vitalidade rítmica. Por vezes ele alcança uma qualidade penetrante que está consideravelmente além do alcance de More: “do jeito que um homem nota Deus em si mesmo, assim ele é ao seu vizinho”20 “Eu sou tu mesmo, e tu és eu mesmo, e não poderia ser mais proximamente familiar”21 “alegre-se, e ria das profundas entranhas do seu coração”22 “para que ele possa ver o amor e amar novamente”23 “Quem ensinou as águias a divisar suas presas? De tal maneira os filhos de Deus divisam seu Pai”24,25. Embora não seja estritamente relevante, se me derem licença, pois parece conhecer-se tão pouco tal fato, digo que a ética social de Tyndale é quase idêntica à de More tão medieval quanto oposta ao que alguns chamam de Nova Economia. Os pontos nos quais esses dois valentes e santos homens concordaram podem ter sido poucos; mas talvez fossem suficientes, se houvessem sido aceitos, para alterar o curso de nossa história para melhor.

Obviamente, não devemos supor que considerações estéticas fossem a prioridade de Tyndale ao traduzir as Escrituras. O assunto era muito sério para isso; almas estavam em jogo. O mesmo vale para todos os tradutores. Coverdale foi provavelmente aquele cuja escolha de interpretação mais se aproximou de haver sido determinada pelo gosto estético. Seus defeitos, bem como suas qualidades, levaram a isso. De todos os tradutores, ele era o menos acadêmico. Entre homens como Erasmo, Tyndale, Munster ou os jesuítas em Reims, ele coloca-se tal qual um barco a remo entre encouraçados. E isso deu-lhe certa liberdade. Incapaz de fazer juízo entre interpretações opostas, permitiu conduzir-se, meio conscientemente, a selecioná-las e combiná-las por gosto. Felizmente, seu gosto era admirável.

A história da Versão Autorizada é tão frequentemente contada que não tentarei recontá-la; suas belezas são elogiadas de maneira tão generosa que não as elogiarei. Em vez disso, passarei imediatamente à sua influência como um livro inglês. Devo tentar definir essa influência, pois acho que houveram mal-entendidos e até certos exageros sobre ela.

Comecemos distinguindo os vários sentidos nos quais se pode dizer que um livro influencia o autor de outro livro.

(1) Um livro pode ser, na linguagem comum de pesquisa, uma fonte. Lydgate menciona os amores de Marte e Vênus. A fonte imediata pode ser algum livro como De Genealogia, de Boccaccio, cuja fonte final é Homero. Penso que usaria um bom inglês ao dizer que Lydgate foi aqui influenciado por Homero. Mas essa não é a maneira mais eficiente de usar a palavra na história literária, e nem é ela tão geralmente usada. Se alguém quiser chamar uma Fonte por Influência, faça-o; mas que reconheça ser a Fonte um tipo muito especial de Influência. A maioria de nós, espero, preferiria distinguir por completo a Fonte da Influência. Uma Fonte dá-nos coisas para escrever; uma Influência leva-nos a escrever de uma certa maneira. Homero é uma Fonte para Lydgate; mas foi para Arnold que Homero atuou como Influência quando aquele escreveu Sohrab and Rustum. Foi o Shah Nameh, de Firdausi, a Fonte de Arnold, apesar de, nesse poema, não haver sido uma Influência. Malory era tanto uma Fonte quanto uma Influência no Morte Darthur de Tennyson; noutros lugares, nos Idílios, foi uma Fonte, mas talvez dificilmente uma Influência.

Se esses termos forem aceitos, podemos distinguir a Bíblia como Fonte da literatura inglesa da Bíblia como Influência Literária. Que é uma Fonte de imensa , não se discute. Por vários séculos, seus personagens, suas cenas e suas doutrinas foram familiares a todo inglês. São usados constantemente para ilustração e alusão. Mas, claro, falando da Bíblia como uma Fonte, geralmente não há nada que indique se a Versão Autorizada está ou não sendo usada. A Bíblia é uma Fonte para Absalão e Aquitofel de Dryden, mas a grafia do nome de Aquitofel não é derivada da Autorizada. Podemos de fato assumir que a maioria dos autores, e com certeza todos os autores incultos, depois do século XVI derivaram seu conhecimento bíblico dessa versão. Mas isso não parece ser um fato de qualquer importância. Os personagens e as histórias seriam os mesmos em qualquer texto que os trouxessem ao conhecimento. Pelo que vejo, a enorme quantidade de material bíblico em nossa literatura não tem lugar na investigação da influência da Versão Autorizada como um Livro Inglês.

(2) Suponho que seria possível dizer que somos influenciados por um livro sempre que o citamos; mas provavelmente nenhum historiador literário sentiria-se confortável usando a palavra influência dessa maneira. Parece-me razoável dizer, por exemplo, que meu próprio hábito de citação imoderada mostrou a Influência de Hazlitt, mas não a Influência dos autores que eu cito; ou que o hábito de Burton citar imoderadamente possa haver sido influenciado por Montaigne, não pelos autores que cita. A citação frequente é ela própria uma característica literária; se os autores a quem surrupiamos não eram eles mesmos chegados numa citação, então, no próprio ato de citar, proclamamos nossa liberdade de sua influência. É quase como a diferença entre tomar emprestado as roupas de um homem para uma ocasião específica e imitar seu estilo indumentário. Se a literatura inglesa está cheia de citações bíblicas, eu não descreveria isso como uma influência da Versão Autorizada, tanto quanto não chamaria de virgilianos todos aqueles que citam Virgílio. Não estou dizendo que fazer o contrário seria necessariamente um uso inapropriado da linguagem; só penso ser a minha maneira de usar o termo mais útil para o objetivo aqui em questão.

(3) Até o momento discorri sobre o que poderíamos chamar de citação flagrante uma citação isolada e restringida por artifícios tipográficos. Mas além disso, é claro que há citações justapostas frases ou expressões da Versão Autorizada artisticamente apuradas à linguagem própria de um autor de maneira que um leitor ignorante não as reconheça. Nossa literatura está cheia disso, especialmente nos séculos XIX e XX; em Trollope, Swinburne e Kipling isso torna-se um estorvo inegável; certo professor americano contemporâneo está seriamente infectado. Nesse processo, a palavra Influência pode ser aplicada muito mais naturalmente. No entanto, mesmo isso não me parece ser Influência no sentido mais profundo, e eu preferiria não chamar de Influência em absoluto. Vou tentar explicar o porquê.

Comecemos por parear esse fenômeno com outros dois do mesmo tipo: as onipresentes citações justapostas de Homero na prosa de Platão, ou de Shakespeare na prosa inglesa. Os fragmentos de Homero perpassam assaz artisticamente por entre o arranjo de um diálogo platônico. Mas sem dúvidas estão todos eles distinguidos de seus arredores por sua métrica e por seu dialeto. Ninguém sustentaria que o estilo de Platão cresce a partir de ou foi aprendido com o de Homero. E, de fato, as porções homéricas não estariam fazendo seu trabalho a menos que as sentíssemos diferentes da prosa ática que as cerca. Elas são usadas tanto para solenidade quanto jocosidade – sendo o jocoso apenas o solene de cabeça para baixo. A própria resposta que elas exigem depende de nós as sentirmos como alheias. Não haveria sentido nelas exceto dessa maneira. Longe de mostrar que o estilo de Platão assimilou o de Homero, elas mostram a diferença irredutível entre eles. E não são as citações shakespearianas justapostas no inglês o mesmo caso? Certamente, nem todo jornalista que fala de um homem mais vítima de culpa do que ele mesmo culpado26, ou de uma solução para almejar-se27, sabe que está citando Shakespeare. Ele pode pensar (significativamente) que está citando a Bíblia. Ele pode até pensar que está usando um provérbio. Mas ele sabe muito bem, e espera que seus leitores o saibam, que está tomando emprestado de algum lugar. Ele conta com esse reconhecimento. Ele está decorando seu estilo. Deseja que a expressão se destaque de sua própria composição, tal qual uma renda dourada destaca-se num casaco. O prazer todo, dessa maneira, depende do fato da citação justaposta ser diferente – em outras palavras, do seu próprio estilo não ser influenciado por Shakespeare.

Acredito que nossas citações justapostas da Versão Autorizada ocupem quase sempre essa exata posição. São quase sempre solenes ou jocosas. Somente porque a prosa ao seu redor é diferente em outras palavras, somente na medida em que o nosso inglês não é influenciado pela Versão Autorizada elas atingem o efeito pretendido pelos autores.

(4) Aqui, finalmente, alcançamos o que eu descreveria como Influência no sentido pleno e estrito a influência da Versão Autorizada no vocabulário. Não acho que estejamos sendo (nesse sentido) influenciados por Shakespeare quando falamos de uma solução para almejar-se. Mas certamente penso que somos influenciados por ele (embora a história fonética seja complicada) sempre que usamos “estranho”28 como adjetivo. Fazemos isso sem intenção de citação; a palavra foi realmente assimilada, entrou na corrente sanguínea de nossa linguagem. Do mesmo modo, somos influenciados por Van Helmont (e talvez por Paracelso) sempre que usamos a palavra gás. Assim também, somos influenciados pela Versão Autorizada e seus predecessores sempre que usamos as palavras belo, longânimo, pacificador ou bode expiatório.29 Tyndale é o nosso credor final para todas essas. Mas mesmo aqui devo suscitar uma distinção. Henry Bradley mencionou, com razão, donzela, vestuário, trabalho de parto e quick significando “vivo”30, como palavras separadas pela Versão Autorizada para o uso poético e arcaico. Mas para esse uso apenas. Elas não estão na corrente sanguínea. Quanto a benignidade e tenras misericórdias31, elas geralmente limitam-se de tal maneira aos contextos religiosos ou à zombaria (já vimos essa história antes) que eu quase as classifico como curtíssimas citações justapostas.

(5) Finalmente, chegamos à influência literária no sentido mais amplo, no sentido que a palavra possui quando dizemos que Paraíso Perdido é influenciado por Homero e Virgílio, ou que o jornalismo do século XIX o é por Macaulay ou a poesia inglesa moderna por Eliot. Você lembrará, talvez, que defini Influência, nesse sentido, como aquela que leva um homem a escrever de uma certa maneira. Mas mesmo dentro dessa definição surgem outras distinções. A influência pode mostrar-se na estrutura. Essa é a maneira mais óbvia, embora não seja a única, pela qual Virgílio influencia Milton. Todo o esboço de sua epopeia é virgiliano. Pouquíssimos escritores ingleses sofreram uma influência desse tipo de qualquer livro da Bíblia. A Filosofia Provincial, de Tupper, e o Livro de Mórmon são prováveis exemplos. Alguns incluiriam Livros Proféticos, de Blake. Novamente, a influência pode mostrar-se no uso da linguagem no ritmo, no imaginário ou (usando essa palavra em seu sentido mais específico) no estilo.

A influência dos ritmos da Versão Autorizada parece-me muito difícil de detectar. Seus ritmos são de fato extremamente variados, e alguns são inevitáveis no idioma inglês. Não tenho total certeza de que uma semelhança no ritmo, a menos que seja apoiada por uma semelhança noutra área, seja habitualmente reconhecível. Se eu dissesse “Na regata, Madge evitou o rio e a multidão”, isso, sem aviso prévio, lembraria-o de “No princípio, Deus criou o céu e a terra”? Mesmo se o lembrasse, seria o ritmo comum, assim separado da comunidade de pensamento e temperamento, uma questão de alguma importância? Creio que sempre que um escritor inglês parece-nos resgatar os ritmos das Escrituras, ele está sempre resgatando outras associações igualmente. A influência do ritmo, isolada do imaginário e do estilo, é talvez uma abstração.

No imaginário, suponho que a influência seja muito grande, embora deva francamente confessar que não fui capaz de inventar um método para averiguá-la. Se escritores ingleses nos mais altos contextos tendem a falar de trigo e vinho no lugar de carne e cerveja e manteiga, de carruagens no lugar de cavalos de guerra, de chuva no lugar do brilho do sol como uma bênção especial, de ovelhas com mais frequência do que de vacas e da espada com mais frequência do que da lança ou da espingarda, se pão em vez de carne de carneiro ou de batatas é seu sublime sinônimo de comida, se rocha é mais poética que tijolo, trombetas que cornetas e púrpura e linho finíssimo mais sublime que cetim e veludo, suspeito que isso se deva à Bíblia, apesar de não ter provas minuciosas.32 Nesta esfera, não seria fácil também distinguir a influência bíblica daquela influência geralmente mediterrânea e antiga que provém dos clássicos bem como da Bíblia. Mas acredito que a influência bíblica aqui é deveras considerável.

Mas em nosso estilo, na efetiva construção de nossas orações, penso que a influência foi possivelmente menor do que supomos. O exemplo perfeito de uma influência nesse campo é aquele exercido em nossa prosa por Dryden e seus contemporâneos (Tillotson e similares). Recorda-se que ele passou por todo o Ensaio Sobre Poesia Dramática e alterou todas as frases que terminavam com uma preposição. Este é, afirmo, um exemplo perfeito de Influência. Ninguém pode fingir que esse curioso tabu era algo próprio da tendência da linguagem e teria se desenvolvido mesmo sem a ação de Dryden e seus colegas galicistas. Pelo contrário, isso é tão alheio à língua que nunca sequer esgueirou-se na conversa dos piores pedantes, e não serve para nada além de aumentar aqueles pequenos montes de monossílabos não acentuados aos quais o inglês já era propenso. Por outro lado, isso estabeleceu-se tanto em nosso estilo formal que milhares o obedecem inconscientemente. É, muito precisamente, algo que nos leva a escrever de uma certa maneira; até eu, que detesto isso por uma superstição afrancesada vinda da sala de aula, sinto-a constantemente mexendo minha pena. Duvido que a Versão Autorizada tenha alcançado um domínio comparável sobre o nosso estilo. De fato, o que me surpreende aqui é o fracasso de alguns de seus mais familiares embriões em sequer entrarem na nossa linguagem. Aconteceu que, respondeu e disse, eis33 já foram esses usados por algum escritor inglês sem plena consciência de que ele estava fazendo uma citação? Se examinarmos os autores que geralmente ouve-se haverem sido influenciados pelo estilo da Versão Autorizada, descobriremos que essa influência está realmente presente, mas que dificilmente é dominante. Considerarei Ruskin e Bunyan.

Em Ruskin, as citações e imagens justapostas da Bíblia são usadas em abundância, mas Homero e Spenser são usados não muito menos; Dante não é pouco frequente. E tudo isso é usado conscientemente. O que Ruskin nos diz em Praeterita34, sobre a formação de seu próprio estilo, é relevante:

“Não houvesse sido a constante leitura da Bíblia, eu provavelmente teria tomado Johnson como meu modelo de Inglês. Num âmbito proveitoso, sempre o fiz; nestes primeiros ensaios, em parte porque não pude evitar, em parte por um definido, e bem definido, propósito … As reviravoltas repetidas de Rambler e iteradas de Idler firmaram-se em meus ouvidos e mente: sequer foi possível, até muito tempo depois, que eu abandonasse a simetria johnsoniana em orações concebidas tanto para o golpe do espadachim quanto do obreiro, para fender o elmo do inimigo ou derribar a coluna de carvalho de uma fundação.”

Em seu estilo maduro nessa mesma passagem penso podermos reconhecer o elemento johnsoniano; não consigo reconhecer o Bíblico. Noutros lugares, embora eu não negue sua presença sobretudo nas imagens , é um dos muitos recursos. Penso que recursos é a melhor palavra. É, por assim dizer, uma das cores em sua paleta, usada a seu critério. Ele tem muitas outras. E, para mim, o que caracteriza o quadro geral, muito diferente da Versão Autorizada, é a estrutura periódica da prosa de Ruskin. Já na passagem citada, que é habitual e epistolar comparada com as altas passagens de Pintores Modernos ou As Pedras de Veneza, você terá notado a transição “sequer foi possível”. Aprende-se isso com o latim clássico. E assim se dá, a longo prazo, o período ruskiniano como um todo. Uma estrutura que descende de Cícero e passa pela prosa de Hooker, Milton e Taylor, e então é enriquecida com cores românticas às quais Homero e a Bíblia contribuem essa parece-me a fórmula do estilo de Ruskin. Se você pudesse tirar o que vem da Bíblia, ela seria comprometida. Acho que dificilmente seria aleijada. Certamente não seria aniquilada. Isso é influência real, apesar de influência limitada. A influência do épico italiano em Spenser seria um bom contraste. Se você tirasse de A Rainha das Fadas tudo o que foi aprendido de Ariosto e Boiardo, o que restaria seria ou nada ou um poema radicalmente diferente. Isso é deveras consistente com a visão de que Spenser acrescentou algo próprio e até alterou seus originais. O alquimista pode até transformar prata em ouro, mas ele deve ter a prata em primeiro lugar.

Bunyan, à primeira vista, aparecerá à maioria de nós como muito mais bíblico que Ruskin. Mas essa impressão deve-se em parte ao fato de ambos serem assaz arcaicos e simples na sintaxe. Nesse sentido, qualquer autor inculto do tempo de Bunyan estaria sujeito a lembrar-nos da Bíblia, havendo ele lido-a ou não. Devemos desconsiderar essa similaridade acidental e olhar mais a fundo. Tomo aleatoriamente um exemplo:

“Então, Desconfiança e Hesitante correram morro abaixo e Cristão seguiu seu caminho. Mas, pensando novamente no que ouviu dos homens, esquadrinhou seu peito pelo rolo, para que pudesse lê-lo ali mesmo e ser consolado; esquadrinhou e, no entanto, não o achou. Assim, Cristão achou-se angustiado e não sabia o que fazer, pois desejava aquilo que costumava aliviá-lo, aquilo que seria seu passe para adentrar a Cidade Celestial. Aqui, portanto, ele começou a tornar-se muito perplexo e desconhecia o que fazer. Lembrou-se, finalmente, que havia sob o caramanchão.”35

A questão não é o quanto disso encontraremos na Versão Autorizada, mas o quanto encontraríamos em Bunyan caso ele não a tivesse lido. Claramente, uma grande parte difere consideravelmente da Bíblia; frases como “Cristão achou-se angustiado”, “desejava aquilo que costumava aliviá-lo”, “aqui, portanto, ele começou a tornar-se muito perplexo”. Restaram “ele seguiu seu caminho”, “esquadrinhou e, no entanto, não o achou”, e o uso de “então” para introduzir uma nova fase numa narrativa. São esses costumes da Versão Autorizada embora tal uso de “então” não seja lá muito comum, muito menos que em Malory. Mas não tenho completa certeza de ser a bíblia de Bunyan a prover as expressões. E se examinarmos o trabalho dele, descobriremos que suas melhores e mais características orações têm comumente um bom toque de não-escriturismo36:

“Mas o homem, de jeito maneira desencorajado, partiu a cortar e lacerar ainda mais impetuosamente.”

“Então ergui os olhos em meu sonho e vi as nuvens acumularem-se numa celeridade incomum, no que ouvi um grande som de uma trombeta…”

“Ora, ele opôs-se à própria Religião; afirmou ser uma deplorável e vil empresa para o homem o importar-se com a Religião.”

“Alguns também desejaram que o caminho seguisse daqui diretamente para a casa de seu Pai, que não mais fossem aflitos por outeiros ou montanhas: mas o caminho é o caminho, e há nele um fim.”

“Finalmente ele entrou e, devo dizer pelo meu Senhor, Ele tratou-o com amabilidade deslumbrante. Nada havia sobre a Mesa exceto por uns poucos bons pedaços, mas alguns deles foram postos em seu prato.”

Tais passagens parecem-me o essencial de Bunyan. Sua prosa chega a ele não da Versão Autorizada, mas da lareira, da oficina e da alameda. Ele é tão nativo quanto Malory ou Defoe. As próprias imagens das Escrituras assumem uma nova rusticidade nesses ambientes: “Ela disse que havia sido enviada para ir ao seu marido: e então contou-nos como o vira num sonho, morando num curioso lugar entre imortais, usando uma coroa, tocando uma harpa”37. A coroa e a harpa vêm do Apocalipse, sem dúvidas, mas o restante da frase vem de Bedfordshire e, nessa aldeia, as imagens transformam-se de uma maneira peculiar. Assim, suas Montanhas Aprazíveis são as montanhas de Bedfordshire exaltadas, verdes até o cume. Sem a Bíblia ele não teria escrito O Peregrino de maneira alguma, pois sua mente seria completamente diferente; mas seu estilo poderia ter sido o mesmo sem a Versão Autorizada.

Se eu estiver certo ao pensar que a Versão Autorizada como uma influência estritamente literária tem menos importância do que costumamos supor, pode-se perguntar como explico tal fato. Penso haverem duas explicações.

Primeiramente, não devemos presumir que ela sempre deu tanto prazer literário quanto no século XIX. Graças ao professor Sutherland, a maioria de nós agora conhece o egrégio Edward Harwood que, em 1768, publicou sua Tradução Liberal do Novo Testamento: Sendo Uma Tentativa de Traduzir os Escritos Sagrados Com a Mesma Liberdade, Espírito e Elegância de Outras Traduções Inglesas Recentes d’Os Clássicos Gregos. Harwood escreveu para substituir “a elegância do inglês moderno” pela “linguagem pobre e bárbara da antiga versão vulgar”. E, sem dúvidas, Harwood era, para nossos padrões, um imbecil. Mas seria ele o único de sua espécie? Ou verbalizaria ele um sentimento amplamente difundido e oculto apenas por reverência? “Pobre e bárbara”, sem elegância… Já ouvimos algo não muito diferente disso antes: “a maneira mais ordinária”, simplicitas sermonis, humillimum genus loquendi. Não é uma acusação que alguém possa apresentar contra a Versão Autorizada ou seus originais atualmente. Aqueles que não gostam das Escrituras são hoje mais propensos a chamar seu estilo de floreado ou empolado; quem gosta elogiaria a sua sublimidade. Quando e como essa mudança ocorreu?

A resposta, sugiro, é que a abordagem moderna da Bíblia, ou o que era até há pouco abordagem moderna, é profundamente influenciada pelo Movimento Romântico; com isso não falo dos Lake Poets, mas daquele gosto pelo primitivo e pelo apaixonado cuja crescente pode ser observada ao longo de quase todo o século XVIII. Os homens empenhados em escavar as baladas, a Edda Antiga, as Sagas, a Canção dos Nibelungos e o Kalevala, os falsários de Otranto e Ossian, aqueles que sonhavam com bardos e druidas, devem ter ouvido a Bíblia com novos ouvidos. A simplicidade primitiva de um mundo em que os reis podiam ser pastores, os súbitos e misteriosos costumes dos profetas, as violentas paixões dos guerreiros da idade do bronze, o cenário com tendas e rebanhos, desertos e montanhas, bem como a rusticidade aldeística das parábolas e metáforas de Nosso Senhor tornaram-se então, suspeito, uma qualidade literária inegável. Os “corpos vis” que Sto. Tomás teve de explicar não eram mais considerados vis. Algo do mesmo tipo estava acontecendo com Homero. Scaliger havia considerado-o vulgar. Chapman reverenciou-o por sua oculta sabedoria. Com o prefácio de Pope, chegamos a uma atitude diferente. “Eu não seria tão delicado”, diz ele, “como aqueles críticos modernos que chocam-se com as ocupações servis e trabalhos desprezíveis com os quais, às vezes, vemos os heróis de Homero envolvidos. Há um prazer em considerar essa simplicidade em oposição ao luxo das idades seguintes; em ver monarcas sem guardas, príncipes cuidando de seus rebanhos e princesas tirando água da fonte.” Ele acrescenta claramente que admitiu em sua versão “vários daqueles verbalismos gerais e maneiras de expressão que chegaram a certa veneração, mesmo em nossa língua, ao serem usados no Antigo Testamento”.

Sugiro, então, que até o advento do gosto romântico, a Versão Autorizada não era um exemplar tão atraente como poderíamos supor. Essa seria uma causa que limita sua influência. A segunda causa foi, creio eu, sua familiaridade.

Isso pode parecer paradoxal, mas é sério. Por três séculos, a Bíblia era tão conhecida que quase nenhuma palavra ou expressão, exceto aquelas que ela compartilhava com todo e qualquer livro em inglês, poderia ser emprestada sem ser reconhecida. Se você citasse a Bíblia, todos sabiam que você estava citando a Bíblia. E certas associações foram instigadas na mente de todo leitor; associações sagradas. Todos os seus leitores a ouviram sendo lida, como um rito ou quase ato ritual, em casa, na escola e na igreja. Isso não significava que a reverência impedisse todas as referências bíblicas. Isso significava que elas seriam usadas apenas com reverência consciente ou com irreverência consciente, religiosa ou jocosamente. Poderia haver um uso piedoso e um uso profano; não poderia, todavia, haver um uso neutro. Quase tudo o que era bíblico era reconhecidamente bíblico, e tudo o que era reconhecido era mais sacro, numinoso; se por isso fazia-se alvo de respeito ou de zombaria, pouco importa. Anote o que disse Boswell no dia 03 de abril de 1773:

“Ele [secr. Dr. Johnson] rejeitou a inserção de frases das Escrituras em discursos seculares. Isso pareceu-me uma questão complicada. Um termo das Escrituras pode ser usado como uma expressão deveras clássica para produzir uma forte impressão instantânea.”

“Como uma expressão deveras clássica” ― esse é o ponto; e produzir uma forte impressão. É difícil conceber condições mais desfavoráveis àquele comedido processo de infiltração pelo qual uma profunda influência literária comumente opera. Uma influência incapaz de iludir nossa consciência não irá muito longe.

Pode-se perguntar se agora, quando apenas uma minoria de ingleses considera a Bíblia como um livro sagrado, podemos premeditar um aumento de sua influência literária. Acho que poderíamos, se ela continuasse a ser vastamente lida. Mas isso não é muito provável. Nossa era de fato cunhou a expressão “a Bíblia como literatura”. Isso geralmente deixa implícito que aqueles que rejeitaram suas pretensões teológicas continuam a apreciá-la como um tesouro de prosa inglesa. Pode ser que sim. Pode haver pessoas que, não havendo sido forçadas por pais crentes a familiarizarem-se com ela, ainda sejam atraídas por seus encantos literários e permaneçam como leitores constantes. Mas nunca encontro essas tais pessoas. Talvez seja porque eu moro nas províncias. Mas não posso deixar de suspeitar, se permitirem-me a besteira de irlandês, que aqueles que leem a Bíblia como literatura não leem a Bíblia.

Seria estranho se o fizessem. Se estou certo ao pensar que a Bíblia, além de seu caráter sagrado, apela mais facilmente a um gosto romântico, devemos esperar encontrá-la negligenciada e até desgostada em nossa própria época. O movimento contra-romântico é de fato tão violento que quem não o compartilha quase se pergunta se não há algo de patológico na tal violência. O ódio do romantismo atingiu o estágio em que não consegue mais ver as diferenças de gênero entre as coisas odiadas. Li noutro dia um ensaio em que o autor repudiou a Balada do Cavalo Branco, de Chesterton, com o argumento de que “Morris domina essas coisas melhor do que Chesterton jamais fez; e ninguém quer eternizar William Morris”. Posso entender, mesmo que lastime, o gosto que não quer eternizar William Morris. O que me surpreende é a implicação de que Chesterton e Morris escreveram o mesmo tipo de poesia. É como se um homem dissesse “Holbein faz todas essas coisas melhor que Ticiano”. Posso apenas concluir que o asco do autor pela poesia romântica alcançou um grau tal de violência em que a diferença entre os calmos efeitos de aquarela de Morris, sua aridez setentrional e sua monótona e acinzentada melodia não podem ser distinguidas de todo o ouro e escarlate e de todas as orgiásticas batidas de Chesterton. Fobias fazem estranhos companheiros de cama. Talvez, para aqueles incapazes de suportar a presença de um gato, o enorme, malhado e cabeça-quadrada do Tom e o pequeno duende cara esfumaçada do Siamês sejam uma coisa só. Mas, claramente, numa época tão anti-romântica como esta, todas as qualidades que antes ajudaram a Bíblia como literatura atuarão agora contra ela. Davi chorando por Absalão, Moisés com a sarça ardente, Elias no Carmelo, o Terror das Grandes Trevas, o Maníaco entre os Túmulos ― o que essas passagens têm a dizer a um incrédulo a menos que ele seja romântico, ou a um contra-romântico a menos que seja ele mesmo um crente?

O que estou dizendo leva em conta a visão de que uma abordagem da Bíblia que parecia para muitos de nós, em nossa juventude, ser simplesmente humana era, na verdade, o produto de um período específico da história do gosto literário. Espero que você ache isso mais verossímil devido aos nossos breves olhares para a história antiga da Bíblia. Talvez tanto o gosto medieval, para o qual o sentido literal era apenas a crosta seca do favo de mel a ocultar a doçura dourada da alegoria, quanto o gosto humanista, que achava que a simplicidade das Escrituras seria melhorada pela retórica, parecessem, em seus próprios dias, naturais e eternos. Nesse contexto podemos ver, numa perspectiva adequada, o gosto dos séculos XVIII e XIX. Sem dúvida, podemos concluir que o gosto contra-romântico do século XX também há de provar-se efêmero; de fato, qualquer que seja o combustível oculto, dificilmente poderá arder com sua fúria atual por muito tempo. Ele será sucedido por outras posturas que não podemos prever.

Inevitavelmente perguntamo-nos se algum deles poderá ser favorável a uma apreciação literária da Bíblia. Despojada (para a maioria dos leitores) de sua autoridade divina, despojada de seus sentidos alegóricos, renegada ao acolhimento romântico por seu sentido histórico, retornará ela, não obstante, junto da onda de alguma nova moda à preeminência literária e será lida? E é claro que não sabemos. Eu ofereço meu palpite. Acho muito improvável que a Bíblia retorne como um livro a menos que retorne como um livro sagrado. Longino poderia aproveitá-la sem ser cristão. Mas afinal, Longino chegou tão perto de ser um romântico quanto um grego era capaz, e sua visão do mundo e do homem era, à sua maneira, religiosa.38 Seria precipitado esperar muito mais do seu tipo. A menos que as reivindicações religiosas da Bíblia sejam novamente reconhecidas, creio que suas reivindicações literárias receberão apenas honra insincera, e isso num ritmo decrescente. Pois ela é, de uma ponta a outra, um livro sagrado. A maioria de suas partes constituintes foi escrita, e todas foram reunidas, para um propósito puramente religioso. Ela contém boa literatura e má literatura. Mas até a boa literatura é escrita de tal maneira que raramente podemos desconsiderar seu caráter sagrado. É fácil ler Homero enquanto suspendemos nossa descrença no panteão grego; mas a Ilíada, naquela altura, não foi composta principalmente, se é que foi de alguma maneira, para impor a obediência a Zeus, Atena e Posido. Os escritores gregos de tragédias são mais religiosos que Homero, mas mesmo aí temos apenas especulações religiosas, ou pelo menos as idéias religiosas pessoais do poeta; não há dogma. É por isso que podemos participar. Nem Ésquilo, nem mesmo Virgílio, prefaciam sequer implicitamente sua poesia com a fórmula “Assim dizem os deuses”. Mas na maior parte da Bíblia tudo é implícita ou explicitamente introduzido com “Assim diz o Senhor”. Ela é, se fosse do agrado colocar de tal maneira, não apenas um livro sagrado, mas um livro tão impiedosa e continuamente sagrado que não convida, mas exclui ou repele, a abordagem meramente estética. Você pode lê-lo como literatura apenas por um tour de force. Mas estará cortando a madeira contra a fibra, usando a ferramenta com uma finalidade para a qual não estava destinada a servir. A situação pede que falemos de maneira clara: ela não continuará a dar prazer literário por muito tempo, exceto àqueles que a procuram por algo bem diferente. Prevejo que no futuro será lida, como sempre foi lida, quase exclusivamente pelos cristãos.

Se muitos críticos, especialmente críticos mais velhos, falam disso de maneira diferente atualmente, sugiro que sejam persuadidos por amigáveis mas não literárias razões. Um livro sagrado rejeitado é como um rei destronado. Em ambos os casos surge nas mentes bem dispostas um escrúpulo cavalheiresco. Cederiam tudo satisfatoriamente, exceto a coisa realmente em questão. Tendo apoiado a deposição, deixariam claro não terem qualquer remorso próprio. Só porque você não pode admitir a possibilidade de uma restauração, está ansioso para falar gentilezas sobre a capacidade pessoal do velho cavalheiro ― elogiando seu estoque de anedotas ou sua coleção de borboletas. Não consigo deixar de pensar que, quando um crítico com idade suficiente para lembrar-se da Bíblia em seu poder profetiza para ela um grande futuro como literatura, ele geralmente é inconscientemente influenciado por motivos semelhantes. Mas tais cortesias não a preservarão. Nem a Bíblia nem aqueles que ainda a leem como crentes convidam tais críticos; e a geração que está crescendo agora os desconsiderará. Para a Bíblia, trate-se da Autorizada ou de qualquer outra versão, prevejo apenas duas possibilidades; ou retornar como um livro sagrado ou seguir os clássicos, se não ao esquecimento, à vida fantasmagórica no museu e no estudo do especialista. Exceto, é claro, dentre a crente minoria que a lê para ser instruída, e assim obtém, como subproduto, o prazer literário.

 

1 O nome completo da Versão Autorizada é Versão Autorizada do Rei Jaime ou, em inglês, Authorized King James Version. [N.T.]

2 Do Sublime, IX.

³ Confissões, VI. V.

4 Ibid.

5 Eruditionis Didascalicae, VI. iii.

6 Ibid.

7 Ibid., IV. i.

8 Ibid., V. ii.

9 Summa Theol. Quaest. I, Art. IX.

10 Ibid.

11 Poet., V. iii.

12 Works (London,1557), p. 1397.

13 Tal foi a versão utilizada pelo autor. A tradução ao português, no entanto, foi feita, com o auxílio de Absalão Marques, a partir de uma versão mais moderna do texto, retirada de St. Thomas More’s History of the Passion , Ed. P. E. Hallett, Trans. Mary Bassett. London: Burns Oates & Washbourne Ltd, 1941. Foi traduzido, então, do seguinte:

this is the short while that is granted ye, and the liberty given unto darkness, that now ye may in the night which till this hour ye could never be suffered to bring to pass in the day, like monstrous ravening fowls, like screech-owls and hags, like bats, owlets, night crows, and birds of the helly lake, go about with your bills, your talons, your teeth, and your shrill shrieking outrageously, but all in vain, thus in the dark to flee upon me.” [N.T.]

14 Parable of the Wicked Mammon, in Doctrinal Treatises, ed. H. Walter (Cambridge, 1848), p. 59.

15 Obedience of a Christian Man (Walter, op. cit., p. 309).

16 Parable of the Wicked Mammon (Walter, op. cit., pp. 100, 102).

17 Pathway (Walter, op. cit., p. 21).

18 Obedience (Walter, op. cit., p. 161).

19 Ibid., pp. 148, 149.

20 Wicked Mammon (Walter, op. cit., p. 58).

21 Obedience, p. 296.

22 Pathway, p. 9.

23 Obedience, p. 136.

24 Answer to More, ed. H. Walter (Cambridge, 1850), p. 490.

25 As frases originais são, respectivamente, as a man feeleth God in himself, so is he to his neighbour”, “I am thou thyself, and thou art I myself, and can be no nearer of kin”, “be glad, and laugh from the low bottom of his heart”, “that he might see love, and love again”, “Who taught the eagles to spy out their prey? Even so the children of God spy out their Father”. [N.T.]

26 Tradução de Carlos Alberto Nunes do original, sendo este a man more sinned against than sinning. [N.T.]

27 Tradução de Carlos Alberto Nunes do original, sendo este a consummation devoutly to be wished. [N.T.]

28 No original, weird. [N.T.]

29 No original, respectivamente, beautiful, long-suffering, peacemaker e scapegoat. [N.T.]

30 No original, respectivamente, damsel, raiment, travail; o significado comum da palavra quick é rápido. [N.T.]

31 No original, respectivamente, loving-kindness e tender mercies. [N.T.]

32 No original:

If English writers in elevated contexts tend to speak of corn and wine rather than of beef and beer and butter, of chariots rather than chargers, of rain rather than sunshine as a characteristic blessing, of sheep more often than cows and of the sword more often than either the pike or the gun, if bread rather than mutton or potatoes is their lofty synonym for food, if stone is more poetical than brick, trumpets than bugles and purple and fine linen loftier than satin and velvet, I suspect that this is due to the Bible, but I have no rigorous proof.” [N.T.]

33 No original, respectivamente, It came to pass, answered and said e lo. [N.T.]

34 XII.

35 No original:

So Mistrust and Timorous ran down the hill, and Christian went on his way. But thinking again of what he heard from the men, he felt in his bosom for his Roll, that he might read therein and be comforted: but he felt, and found it not, Then was Christian in great distress, and knew not what to do, for he wanted that which used to relieve him, and that which should have been his pass into the Celestial City. Here therefore he began to be much perplexed and knew not what to do. At last he bethought that he had slept in the Arbour.[N.T.]

36 No original, respectivamente:

“But the man, not at all discouraged, fell to cutting and hacking most fiercely.

So I looked up in my Dream and saw the clouds rack at an unusual rate, upon which I heard a great sound of a Trumpet…

Why, he objected against Religion itself; he said it was a pitiful low, sneaking business for a man to mind Religion.

Some also have wished that the next way to their Father’s house were here, that they might be troubled no more with either Hills or Mountains to go over: but the way is the way, and there’s an end.

At last he came in, and I will say that for my Lord, he carried it wonderful lovingly to him. There were but a few good bits at the Table but some of it was laid upon his Trencher.”

37 No original, She said she was sent for to go to her Husband: and then she up and told us how she had seen him in a dream, dwelling in a curious place among Immortals, wearing a Crown, playing upon a Harp”. [N.T.]

38 v. cap. XXXIV