O Alimento da Alma

por Vitor Beuren

    Olhamos ao redor e o que vemos? O que ouvimos? O que lemos? O que nos move pelos trabalhos da vida? Qual o nosso alimento da alma?

    Perguntas importantíssimas, evidentemente. E com pesaroso considerar respondemos: vemos a feiura; ouvimos a obscenidade; lemos conversas virtuais dispersas; movemo-nos pelo medo do futuro ou do passado; alimentamos nossa alma com lixo e com vícios.

    Um dos problemas que assalta as pessoas destes tempos é, sem dúvidas, o esquecimento da Beleza. Durante boa parte da história foi ela sustentada como um valor tão importante quanto a verdade e a bondade. Hoje, com a relativização destas e com a tentativa de atingir uma neutralidade artificial, a estética é usada para fins pragmáticos e egoístas. Contemplar uma obra de arte, concluem nossos contemporâneos, é inútil em nossa carreira atrás da sobrevivência.

    Com uma analogia aos alimentos, pensemos no seguinte. Devemos comer; do contrário, morreremos. Aqui, nós, abastados moradores do ocidente, temos duas opções: a refeição saudável preparada com esmero para ser degustada ou um hambúrguer feito de produtos químicos diversos no fast-food mais próximo. A primeira opção requer tempo, calma e presença de espírito. A segunda não; serve apenas para saciar o instinto e tirar-nos a saúde. Alguém que come apenas o segundo tipo, diremos, precisará reeducar-se para ter uma vida saudável.

    Pois nossa constituição pede pela beleza da mesma forma que o corpo pede por alimento. A beleza é, assim, o alimento da alma. E aqui temos também duas opções. Aquietarmo-nos e contemplarmos a criação e as obras de arte ou, na correria da vida, suprirmos nossa necessidade com produtos artísticos fatais e viciantes.

    Volvamos a atenção novamente para as gentes contemporâneas, correndo tais quais formigas numa colônia. No ato de sobreviver nas selvas de concreto não há espaço para a contemplação, a porta para as belas artes. Mas as, digamos, feias artes não pedem muito esforço. E com elas a sociedade está inundada. Ouvem o barulho que se toca por aí?

    Músicas que se resumem numa batida viciante e numa melodia meia-boca e grudenta. Não sendo suficientes os danos ao senso estético, as letras ainda destroem o senso moral do consumidor — aplaudem a violência, o adultério, a prostituição, o tráfico, o egoísmo etc. Silenciadas todas as músicas com essas características, e com elas apenas, restariam poucas tocando na trilha sonora atual. Seríamos deixados ao silêncio!

    Aí está a razão das pessoas de hoje acharem tão chatas e desinteressantes as músicas eruditas. Daí que escutar um moteto como Ave Verum Corpus seja rotular-se como “velho”. Porque o silêncio assusta; porque o silêncio é a abstinência das batidas viciantes. Mas ele é o primeiro passo para a desintoxicação estética que leva à experiência de pura beleza com a música.

    E não é necessário ir de algum MC do mundo do Funk direto para Chopin, nem de uma música rápida para um requiem. Há outros artistas que compuseram músicas que expressam a beleza; há muitas melodias e ritmos que descobriram harmonia. É por esses que se deve buscar.

    Também é factualmente triste os os brasileiros gastarem, em média, 225 minutos por dia nas redes sociais. Quilômetros de postagens são roladas nos feeds e raramente devota-se cinco segundos para prestar atenção às imagens e textos. É um consumismo ansioso de informações. De onde, portanto, colheríamos paciência para os pintores?

    Há pinturas que são aulas completas; é o caso de Juventude, de Thomas Cole. Há também as que nos transportam para outro mundo com suas cores, como fazem as obras de Van Gogh. E as que, após um segundo olhar, convidam-nos a entrar no quadro, como a ceia em Emaús, de Caravaggio.

    Mas a pressa, a ansiedade e a mente viciada negam-nos os prazeres estéticos que a pintura nos proporciona.

    Há, no entanto, esperança de cura!

    Duzentos e vinte e cinco minutos nas redes sociais? Que tal usá-los de maneira inteligente, educando seu senso estético e reacendendo a chama das experiências da beleza? Passe a seguir perfis de museus e outros que compartilhem pinturas. Quando uma chegar à tela do seu celular, seja atencioso. Pare. Olhe por um tempo para a obra; note seus detalhes, suas linhas, suas cores, suas formas e a distribuição delas. Seja amigo das pinturas. Não vicie seus olhos!

    Nota-se igualmente por aí o quase analfabetismo generalizado no que se escreve hoje. Poucos acertam uma vírgula, um acento, uma conjugação verbal ou regras ortográficas básicas. A solução proposta? Leitura, obviamente. Mas basta a simples leitura? Ou melhor, serve qualquer leitura? Haveria algum tipo mais educativo? Deveras. E ela não educa no âmbito gramatical e ortográfico apenas; ensina a pensar. Trata-se da Literatura Clássica.

    As palavras são símbolos que usamos para pensar e nos comunicarmos. Pois pensar e comunicar o pensamento através de imagens seria muito pesado e demandaria grande esforço. Daí usarmos as palavras para simbolizar as imagens. E onde ficam as imagens armazenadas? No que chamamos de Imaginação.

    Suponhamos, então, que alguém tenha a mente cheia de imagens apenas. Como haverá de comunicá-las? E se outro souber toda a gramática correta mas tiver a imaginação vazia? Suas palavras terão conteúdo? Portanto, para a boa comunicação e para o bom pensamento, imagens e palavras relacionam-se.

    Destarte, qual outro tipo de arte serve melhor para alimentar a imaginação e educar nossa linguagem do que a literatura? E qual outro tipo de literatura o faz melhor do que aquela dos clássicos? Homero e Virgílio, Dostoiévski e Assis; neles encontram-se histórias e personagens extraordinários; textos tão belamente escritos que nos fazem ler novamente, reler de novo, decorar, declamar e tomar como provérbios.

    Mas nossa cultura relegou a imaginação às crianças apenas – e certifica-se de extingui-la o quanto antes. Não há tempo para bobagens. Devem assistir televisão, rolar a tela do celular e compartilhar memes nos grupos virtuais. Coisas estas que enchem a imaginação. Como um mofo embrenham-se na cabeça. Não há saúde aí. Há morte da alma!

    Não nos desesperemos, no entanto! Sabe-se qual a importância da literatura. Por onde, então, começar? Pelo que lhe chamar a atenção. Mistério? Arthur Conan Doyle. Romance? Jane Austen. Comédia? Cervantes. Leia dez páginas por dia. Pegue gosto pela leitura e aprenda a caminhar por entre os gigantes do passado até conseguir ler Homero e Virgílio, Camões e Machado; até saber aproveitar os gênios como alguém que passou de um consumidor de hambúrgueres venenosos a um degustador de receitas caseiras herdadas de gerações.

    Parafraseando Mortimer Adler, vemos que, privados de beleza, nem sempre os seres humanos tomam consciência de sua privação. Infelizmente, é raro que sintamos o aperto da feiúra como sentimos o aperto da fome. Há na beleza certa consolação. Com isso quero dizer o mesmo que disse o saudoso Sir Roger Scruton.

    “Através da busca pela beleza nós moldamos o mundo como um lar, e ao fazer isso tanto ampliamos nossa alegria quanto encontramos consolação para nossas dores. Se ignorarmos isso, encontraremo-nos em um deserto espiritual.”

    “A beleza é atacada por dois lados”, ele também dizia, “pelo culto à feiúra nas artes e pelo culto à utilidade no dia a dia”.

    Abaixo com esses deuses! Quero despertar-lhe novamente a fome pela beleza. Não se contente com a arte consumista. Fique em silêncio por um momento. Então busque a música harmônica, a agradável pintura, as belas palavras. Eis aí a criação desvelada em comovente maravilha; contemple-a!

    Independente da correria do nosso tempo, permita que a beleza entre na sua vida e faça deste mundo mesmo um lar para se viver.

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