Nossos Ídolos, por Rui Barbosa

Cerramos hoje, aqui, as contas públicas que a querela da Gazeta de Notícias nos induziu a dar da nossa atitude, da nossa linguagem, das nossas intenções. Se tão abundantes satisfações ainda não satisfazem o estimável colega, ao menos envidamos o possível, por honrar a alta origem da provocação, não obstante a surpresa que nos causou a nós e a todos. Demos o que de nós podíamos dar; e, se ficamos aquém dos seus desejos, sobrou-nos, todavia, boa vontade. Basta isto para absolvição de pecador.

A posição do honrado colega para conosco, este plenário instituído sobre as opiniões de quem aliás as tem manifestado tão claras, tão congruentes, tão firmes desde o primeiro dia, esta devassa quanto às crenças políticas de um jornalista, atalhando-lhe os primeiros passos, não tem antecedências em a nossa imprensa, onde a praxe, invariável até hoje, era a da mais bonacha condescendência de todos para com todos, reservando-se cada jornal, com assenso unânime dos outros, a liberdade ampla de perfilhar uma convicção cada manhã.

Felicitamo-nos da exceção, que ao nosso bom amigo aprouve abrir a nosso respeito. Cremos que nos quis prestar serviço de amizade; e pode estar certo de que o prestou.

Mas permita-nos lembrar-lhe que a Gazeta mesma ainda nos não revelou as suas idéias; apenas nos indica as suas tendências; o que denotaria, na sua consciência política, uma espécie de estado crepuscular, que a inabilita para avaliar as opiniões políticas de outrem.

Permita-nos o ilustre confrade, ainda, não deixarmos passar sem reparo a inoportunidade, que nos parece óbvia, da intimação, com que nos embargou o caminho. A Gazeta acha-se em posição invejável: zurze, de quando em quando, o ministério até ao sangue, e pelos seus bons olhos merece, ainda por cima, que lhe ele agradeça as pisas.

O contemporâneo, pois, é, indubitavelmente, um oposicionista; mas oposicionista, a quem boas fadas proporcionaram a fortuna singular de convencer a vítima de que as suas sovas são puras obras de misericórdia, dignas, como tais, de pio reconhecimento.

Adversário, porém, do Governo, em todo caso, não se compreende no colega a espontaneidade singular desta diversão, inteligível, sim, em satélites do poder, com que veio, em proveito real deste, amortecer os golpes de outro antagonista.

Seu intuito, estamos certos, foi servir ao público; mas o resultado natural da sua tática era servir ao gabinete. Colocou-se o nosso benévolo confrade conosco, involutariamente, está claro, na condição dos que desapartam rixas, tolhendo as mãos do amigo agravado, porque se não deite a perder, enquanto o contendor se utiliza da liberdade, que lhe deixam, para dobrar e redobrar impunemente os assaltos. Dar-se-ia que tudo isso venha a ser, da parte da Gazeta, 85um egoismozinho de oficial do ofício, que não permite a outros quinhoarem no prazer, gulosamente saboreado por ela, de malhar no gabinete, e vê-lo agradecer-lhe as tosas?

Quer a Gazeta que, para falarmos verdade à monarquia, cubramos primeiro a cabeça com o gorro frígio, o anacrônico emblema das repúblicas à francesa, ensinando-nos, assim, que o sentimento monárquico é incompatível com a sinceridade liberal, e vive de subserviência à corrupção das cortes.

Bem excêntrico nos parece esse republicanismo, que se esforça em tirar à causa das suas idéias o concurso indireto, resultante dos vícios da monarquia, confessados por monarquistas. Em realistas do antigo regímen a exigência, que nos dirige o colega, frisaria a primor. Mas, numa folha adita à democracia pura! É a primeira vez, desde o Gênesis, em que já se viu a república negar a monarquistas a faculdade vulgar de maldizer da monarquia.

A ilustrada redação da Gazeta, que nos argüiu de ter ídolos, não percebe que ídolo é essa casta de república, a que o nosso amigo parece render culto, — uma espécie de divindade imóvel, talhada na rocha de preconceitos exclusivistas e separada, por abismos, das outras formas livres de governo.

Outra há de ser a idéia republicana, para os que a possuírem na sua pureza superior. A república é o vasto ambiente da liberdade moderna, o éter onipresente nas instituições contemporâneas, envolvendo-as, permeando-as, iluminando-as pelo atrito.

A força irresistível desse princípio consiste em que penetra as monarquias, constituindo o elemento de combustão vital indispensável a todas as constituições viventes. Aquela que com ele se torna incompatível, está condenada a desaparecer, como o pulmão tuberculinizado, que já não tolera o oxigênio.

República significa autogoverno do povo, e monarquia representativa não quer dizer outra coisa. O trono é apenas o envoltório, que não pode estar em contradição com o organismo interior, sem estalar à pressão de forças irresistíveis. Não há, portanto, valos: há gradação apenas, entre a forma republicana e a monarquia; e da monarquia à república vai não mais de um passo, que os espíritos independentes não hesitarão um momento em transpor, logo que o acessório usurpe definitivamente o domínio do principal.

O Diário de Notícias não conhece ídolos: conhece princípios; e esses princípios, eleva-os ele acima de todas as formas de governo. As monarquias republicanizam-se mediante as instituições parlamentares, assim como a república se cesariza pela ditadura. Cientificamente, o que lhes distingue o caráter, são os princípios constitucionais.

Um grande princípio é, verbi gratia, o direito de reunião. Por ele nos bateríamos contra todas as formas de governo; por ele chegaríamos amanhã até à república, se a monarquia acabasse por aniquilá-lo. Defendemos esse direito ontem, contra a realeza, a favor do abolicionismo; defendemo-lo hoje, a favor dos republicanos, contra os abolicionistas, que se esquecem do passado glorioso, aliando-se ao trono, para esmagar a garantia liberal, que foi ontem o nosso terreno de combate. Defendê-lo-emos amanhã em benefício de todas as opiniões, ainda as mais adversas ao nosso credo pessoal. Militaremos por ele ao lado dos ultramontanos contra o fanatismo incrédulo, que pretenda amordaçar a expansão das opiniões religiosas pela palavra desarmada, ou ao lado do pensamento livre contra o fanatismo clerical, que reclame para a igreja o monopólio da influência popular. E o que, em relação a esse direito, acabamos de dizer, dito está em relação a todas as liberdades necessárias.

Se ainda apoiamos a monarquia, é considerando-a como meio de as amparar; mas entre qualquer delas e a coroa, entre o menor direito de um cidadão e as pretensões invasoras do trono, nunca hesitaremos um momento.

Ídolos! Ídolos são os das “dedicações incondicionais”, que o nosso honrado colega não interpela, que não se atreve a dar senão por hipótese como “extremos condenáveis”, e que, por um como contraste com a nossa posição, aureola com as simpatias, que de nós procura afastar. Não há altares, que justifiquem tais holocaustos. A consciência é um bem inalienável, de que não podemos fazer presente ainda aos maiores benfeitores do gênero humano, nem sacrificar, sequer, aos sentimentos mais generosos.

Dedicação incondicional é pacto de escravidão, e, portanto, pacto reprovado. Os cidadãos que o celebram, ou têm ainda em estado embrionário a sua educação política, ou jazem passageiramente na absorção de um êxtase contemplativo, que positivamente não é a disposição intelectual mais própria ao exame dos negócios do Estado.
Oh! nós nos sabemos preservar bem do perigo dos ídolos. E por isto é que nos premunimos contra a fascinação de palavras santas, quando deixam de exprimir aspirações benfazejas; quando a sua realidade íntima desapareceu, ficando apenas a harmonia religiosa das frases, que infundiam ontem aos lutadores a coragem da justiça, e hoje dissimulam a iniquidade do mal.

Houve nada mais pio que o abolicionismo, enquanto ele traduzia a luta de uma grande raça oprimida, batalhando pela sua redenção? Mas, hoje, querem transformá-lo num ídolo, ídolo mau, ídolo de guerra civil, ídolo de compressão eleitoral, ídolo de sangue. Revoltamo-nos peremptoriamente contra esse fanatismo novo; e em face lhe havemos de dizer, enquanto nos não arrancarem a pena da mão, que o detestamos como ímpio, com o mesmo aborrecimento com que ontem odiávamos o cativeiro.

Se o nosso espírito adorasse ídolos, a nossa situação seria beata; porque não há ídolos sem sacristia e refeitório. Todos eles têm o seu tabernáculo, onde os sacerdotes celebram os mistérios do estômago.

O Diário de Notícias, porém, pode perguntar livremente de que lado do céu está o poder, que adoramos.

Para uns, o Diário é uma agência incendiária do republicanismo. Para outros, está fazendo sorrateiramente a política de um partido: preparando a ascensão liberal. Para outros, ainda, é uma ressurreição das antigas casas do Valongo, ou um forno de assar escravos.

Mas o certo é que o público nos aceita, nos abraça, nos aplaude, sendo que o desenvolvimento da nossa circulação em poucos dias é incomparável; e não podemos atribuir esta aceitação extraordinária, dadas a fraqueza intelectual desta redação e a obscuridade dos seus redatores, senão à harmonia entre a nossa propaganda e o sentimento geral do país.

Qual é, então, o nosso ídolo? A Gazeta aponta o senador Dantas. Bem haja o colega, por nos dar esta ocasião de levantarmos uma atoarda, que aí sussurra contra nós de cochicho em cochicho. Por que há de ser nosso ídolo o Sr. Dantas? Não percebemos; a não ser (o que seria impossível supor) que o nosso ilustre amigo não distinga entre amizade e idolatria.

Nós sabemos estabelecer perfeitamente essa distinção. Apoiamos o Sr. Dantas, quando ele era, na Bahia, de 1870 a 1878, a oposição liberal; apoiamo-lo, em 1881, quando era, no ministério Saraiva, a eleição direta; tornamos a apoiá-lo, quando foi, na presidência do conselho, de 1884 a 1885, a abolição. Apoiá-lo-emos enquanto suas ideias e as nossas estiverem de acordo. Se, algum dia, se repelirem, fique certa a Gazeta de que não subordinaremos o dever às impressões do coração.

Se a Gazeta fizesse ao redator-chefe do Diário a justiça, que fazemos ao nosso honrado confrade, saberia que, em esfera intelectual muito inferior, nós aprendemos naquela escola patriótica, de que nos deu exemplo Robert Peel, separando-se de seu pai, na Câmara dos Comuns, para esposar a emancipação católica.

Nessa hipótese, que figuramos apenas como hipótese, saberíamos respeitar os direitos da gratidão, sem sacrificar os da idéia. O amigo será sempre sagrado aos nossos olhos, à nossa palavra, da qual nunca jamais cairá um vilipêndio ainda contra amigos de outro tempo, nem mesmo aqueles, para quem a discussão acaba em vômito de lama, mas que a confraternidade de ontem, na defesa da mais divina das causas, ungiu para sempre aos olhos da nossa indignação.

Por que motivo o redator-chefe do Diário de Notícias necessitará de declarações, para ser considerado sui juris? Precisará o público, realmente, de liquidar a opinião do Sr. Dantas? Pois vão perguntar-lha a ele. A nossa é esta. Devemos presumir que ela se afina com as do eminente chefe liberal. Mas, se nos enganamos, nem por isto mudaremos de posto.

O Diário de Notícias poderia dizer à sua pátria, como Guizot, quando ainda simples estudante de Direito, a sua mãe: “Irei por diante, linha reta, até onde e enquanto aprouver a Deus.”

A nossa reta é o radicalismo liberal, cuja expressão imediata se traduz na federação das províncias. Esta reta não se desviará, quaisquer que sejam as responsabilidades, nos seus pontos de interseção com os acontecimentos futuros.

Qual é, então, o nosso partido? O das nossas ideias. Estaremos, onde elas encontrarem apoio; combateremos, enquanto nos restar vida, os que as adversarem.

Está contente o nosso bom colega, a quem afetuosamente apertamos a mão? Nós contamos com a sua aliança: e havemos de ir pedir-lhe muitas vezes alento e conselho.

No mais, consinta-nos dizer, como Thiers, quando, em 1846, advogando a purificação da Câmara pelas incompatibilidades parlamentares, rematou com aquela peroração admirável, que soa, na atmosfera agitada do tempo, como a sua quase despedida e o seu ultimatum à monarquia: “Nós vemos nesta medida um passo, e um passo considerável, na carreira em que nos empenhamos, e ao cabo da qual divisamos em perspectiva o governo representativo. Dizem-nos amiúde que isso virá tarde. Pois bem: seja! Lembra-me, neste momento, a nobre linguagem do escritor alemão, que, aludindo às opiniões destinadas a triunfar tarde, escreveu estas belas palavras: “Eu colocarei o meu barco no mais elevado promontório da plaga, e esperarei que a maré cresça bem alto, até que ele flutue.”

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