Lições de Linguagem I

por Diego Cândido

      Em sua Gramática Expositiva (Curso Superior), Eduardo Carlos Pereira define a Linguagem como “expressão do pensamento por meio de palavras”. A definição parece minúscula e, como nos diz a Lógica, quanto menor uma definição, mais pobre ela é, pois abarca mais seres em si. Contudo, o próprio gramático mais a frente explicita o conceito de “palavra”. “A palavra”, ele diz, “pode ser falada ou escrita: daí a linguagem falada ou glótica, e a linguagem escrita ou gráfica. A estas, por analogia, agrega-se a linguagem gesticulada, mímica ou de ação, constituída pelos gestos ou vários movimentos do corpo, de que se servem os mudos e, em parte, os oradores para darem vida ao discurso.”

      A definição de Pereira nos será útil para o que propomos nesse artigo, isto é, que a linguagem, sendo expressão do pensamento e também da realidade, não pode ir além desta tencionando seguir aquela. Contudo, precisamos prová-lo e entender que a realidade existe apesar de nós e não por nós. Ao contrário do que dizem os relativistas e certos empiristas, existem verdades que independem da vontade humana e do progresso histórico para serem. Em qualquer era a expressão “1+1=2” é verdade pela imutabilidade lógica. Mesmo que nenhum ser humano jamais tenha pensado sobre o fato, “1+1=2” é verdade. Podemos ainda citar mais exemplos: A não pode ser B se B não for A; se A é igual a C e B é igual a C, logo A é igual a B; quanto maior um conceito, mais específico ele é; a ausência de uma definição implica em uma generalização; se A contém B e B contém C, A contém C, etc. Essas verdades são imutáveis, isto é, não dependem de fatores externos para existirem. Elas fazem parte da realidade. Podemos ainda trazer um simples exercício lógico: imagine o leitor um livro fechado a sua frente. Ao pôr a mão sobre esse livro, este ocupará um espaço, aquela, outro espaço. Ambos os objetos não podem ocupar o mesmo espaço. A realidade é, pois, exterior a nós, sendo nós mesmos coparticipantes dela.

      A necessidade de transmitir os fatos da realidade, isto é, os fatos que existem, fez o ser humano criar a linguagem, sendo ela, portanto, uma ferramenta. A linguagem expressa a realidade e, sabendo que tudo que se expressa necessita de um emissor e de um receptor, mesmo que esses sejam iguais, ela apresenta-se como um meio pelo qual um mensagem pode ser transmitida.

      É a partir da linguagem que nasce a língua, “sistema natural de palavras de que se servem os agrupamentos de homens para entre si comunicarem seus pensamentos”, ou seja, a linguagem. Sendo a linguagem um meio e não um fim, ela ainda necessita de outro meio: a língua. A língua estrutura as diversas formas de comunicação sob regras específicas que possibilitam a transmissão da mensagem.

       Daí, uma conclusão: quanto mais complexa a linguagem, mais rica ela é. Uma linguagem com 20.000 vocábulos diz-se ser “mais rica” que uma linguagem com 5.000. Isso pelo motivo que já dissemos: sendo a linguagem expressão da realidade e do pensamento, quanto melhor a expressão, mais completa ela é. Por exemplo: na língua inglesa, o artigo definido é o the, enquanto na língua portuguesa, o, a, os e as e na língua francesa, le, la e les. O que fica claro é que a língua inglesa é menos completa que as outras citadas, pois só consegue representar a realidade de gênero e número no artigo sob uma forma: the.

      Vale ressaltar ainda que a realidade, e consequentemente a linguagem, está acima de qualquer proposição ideológica. Portanto, idealizações baratas que tentam modificar gêneros e números em artigos, substantivos e adjetivos por artificializações quaisquer não são capazes de descrever a realidade, são anticientíficas e tendem a empobrecer os complexos mecanismos linguísticos.