COVID-19 e a Igreja

por Rev. Dr. Alan D. Strange

traduzido por Natan Cerqueira

    As pragas têm nos incomodado menos, no que as condições gerais de saúde melhoram no mundo todo. Entretanto, ameaças como a COVID-19 não são surpresa àqueles que têm prestado atenção em outras crises sanitárias dos últimos anos. Bill Gates, dentre outros, avisou da probabilidade de uma pandemia e que medidas preventivas deveriam ser tomadas para evitá-la. Mas essas medidas são caras e a políticos de todos os partidos dão à vida presente a precedência sobre preparação para contingências futuras. Como resultado dessa falta de preparação, boa parte do país está, no momento em que escrevo, em quarentena para “achatar a curva” e evitar que o sistema de saúde se sobrecarregue. Muitas de nossas igrejas não podem se encontrar para o culto público, limitando-se a transmissões e a devoções pessoais.

Segurança em Meio a Pragas

    A igreja já enfrentou pragas antes. A peste negra varreu a Europa em 1348 e matou mais de um terço da metade da população. O medo que a peste bubônica engendrou é lendário e foi relatado em crônicas da época por Chaucer e outros. O medo de então era piorado pela falta de clareza por parte da igreja medieval, particularmente sobre as questões: “como posso apresentar-me diante de um Deus justo?” e “Dá para ter certeza de minha aceitação diante de Deus?”.

    A igreja frequentemente respondia essas questões com generalidades como “Deus não negará sua graça àquele que faz o seu melhor”, mas isso oferecia pouco conforto a uma população moribunda que temia a condenação eterna. A grande descoberta de Lutero foi dolorosamente necessária num mundo assim: a justiça que um Deus santo espera e requer de suas criaturas é dada pelo próprio Deus como presente, que é recebido por fé somente. Assim, a obra de Cristo, sua justiça alheia a nós, veio a ser compreendida como a base de nossa aceitação diante de Deus e, assim, a certeza era obtida ao confiar em Cristo somente, tudo isso uma obra da graça somente, conforme ensinado na escritura somente, tudo para a glória de Deus somente.

     Grandes pragas haviam ocorrido antes e depois da peste negra. Outra delas pegou Londres entre 1665 e 1666. Uma das grandes diferenças, contudo, da Londres de 1665 para a praga de 1348 foi que a Reforma já havia ocorrido, havendo, portanto, verdadeiramente boas notícias para serem entregues pelos pastores puritanos a seus rebanhos recuperados. De fato, uma compreensão mais plena da aliança vigorava e muitos pregavam que Cristo veio para nos salvar não apenas pela sua morte na cruz (sua obediência passiva), mas por toda a sua obediência, incluindo sua observância da lei por nós (sua obediência ativa). Duros tempos confrontaram Londres em 1666, mas o diadema da graça de Deus, conforme compreendida e ensinada pelos reformadores e puritanos, resplandeceu lustrosamente em meio à escuridão do pecado e da dificuldade daqueles tempos.

Autoridade Civil e Reunindo-se para Cultuar

     Abundam exemplo de como cristãos podem agir e ministrar durante uma crise sanitária. Lutero e Calvino acreditavam que nós devêssemos ajudar todos aqueles que pudéssemos sem infligir dano (considerando nossas próprias vidas como dispensáveis), sempre ministrando a Cristo para todos. O importante – agora que sabemos mais sobre a doença, especialmente sobre seu contágio e prevenção – é que sigamos o direcionamento de nossas autoridades sanitárias e líderes civis; ao últimos, devemos uma medida de submissão adequada, mesmo que discordemos deles baseados em nossa própria pesquisa ou até mesmo especialidade.

    Alguns, tando dentro como fora do ministério, têm levantado questionamentos sobre a legalidade de o magistrado civil emitir ordens que impactem o culto especialmente aqueles tornando impossível que nos encontremos para cultuar. Por um lado, teria o magistrado civil o direito de nos dizer se podemos ou não cultuar e servir ao Senhor, contrariando o mandamento de Deus? Não. Por outro lado, poderia o magistrado civil endereçar aquilo que pertence ao bem-estar físico de seus cidadãos, mesmo que isso impacte o encontro público da igreja? Sim, assim como, se a igreja estiver em perigo de incêndio selvagem e tiver de ser evacuada, ou se um furacão estiver a caminho e tiver de ser evacuada e afins.

    O magistrado civil tem o direito de endereçar essas exigências, mesmo que discordemos corporativamente, como igreja, em determinado caso (ou individualmente, enquanto pessoas). Talvez creiamos que a autoridade civil esteja agindo insensatamente, mas isso não invalida sua autoridade para agir em casos assim. Se nos for aberta a oportunidade de apelar num fórum civil, nós podemos aproveitá-la. No entanto, nós não estamos livres para simplesmente desdenhar da autoridade civil quando ela professa estar agindo pelo bem público e não ordena fazer nada contrário à vontade de Deus. Embora os governantes estejam proibindo agrupamentos maiores, eles não estão, pelo menos não nos EUA, dizendo que nós não podemos adorar a Deus no Dia do Senhor, apenas que as igrejas devem fazer isso, presentemente, de um modo que não seja com agrupamentos em reunião.

     Nós devemos distinguir aqui: o magistrado civil não disse a nenhuma igreja aqui, nesta situação, que ela não pode se reunir como parte de uma campanha de perseguição religiosa contra o evangelho. Alguns hoje acreditam que a autoridade civil excedeu os limites de sua competência ao proibir “reuniões públicas” e que a igreja deve ignorá-la, para que não caia sob maior condenação e juízo. No entanto, essa é uma compreensão incorreta dos papéis adequados da igreja e do estado. As igrejas deveriam ser cuidadosas para não parecem desnecessariamente hostis ao exercício legítimo da autoridade e discricionariedade do estado.

    Uma compreensão adequada da espiritualidade da igreja preocupa-se com os papéis e responsabilidades de ambos igreja e estado. O estado tem o direito de proibir reuniões de grupos maiores se ele crê que isso colocaria a saúde pública em perigo. Pode-se disputar isso no fórum apropriado, mas a igreja não deveria se recusar a dar ouvidos a diretivas legítimas do magistrado civil, mesmo que indivíduos particulares dentro da igreja creiam que elas estejam severamente equivocadas.

Transmissões Dignas

    O culto online não é o mesmo que o culto público com uma manifestação visível e local do corpo místico de Cristo. Contudo, o desejo de comparecer ao culto público no Dia do Senhor conta, embora providencialmente impedido, como um ato de louvor aceitável da parte do adorador. Os profetas do Antigo Testamento deixaram claro que aproximar-se de Deus mesmo estando longe dele espiritualmente não configurava um sacrifício aceitável, nem era verdadeiro louvor. Console-se, portanto, se sua igreja está fechada a frequentadores (você não pode fazer nada quanto a isso), tendo apenas a opção da transmissão ao vivo. Seu desejo de cultuar em pessoa e a devoção de seu coração ao Senhor o põe em um lugar melhor do que aquele que está fisicamente presente, mas com um coração distante do Senhor.

    O que devemos fazer numa situação assim, quando não podemos nos encontrar como igreja para o culto público? Deveríamos encarar isso como juízo? Bem, nós sabemos que o juízo começa com a casa do Senhor (1 Pedro 4:17) e que nós certamente precisamos nos arrepender de nossa falta de amor pelo Senhor (frequentemente demonstrada em nosso culto público, tanto por nossa ausência quando pela nossa frieza) e da nossa falta de amor um pelo outro (visto em vários modos de egoísmo nosso). Nós devemos tomar esta ocasião para nos humilharmos e arrependermo-nos de nossos pecados. Nossa sociedade é certamente culpada de múltiplos pecados e merece punição, mas tudo fora de Cristo sempre merece juízo, então, nosso chamado a eles é para que venham a Cristo, crentes e arrependidos, cientes de que o último juízo virá e que todos devem se refugiar em Cristo.

    Ao mesmo tempo, devemos tomar cuidado para não pensar que podemos compreender Deus e seus caminhos, que são inescrutáveis (Romano 11:33-36; ver também Isaías 55:9). Nós não devemos nos ocupar com assuntos elevados demais para nós (Salmo 131), mas nós podemos saber, de um modo geral, que o Senhor nos chama ao arrependimento sempre que ele traz dificuldades ao nosso caminho (Hebreus 12:3-17). Nós não devemos pensar que conseguimos compreender exaustivamente a providência de Deus, devemos, sim, ser cuidadosos ao proclamar que sabemos o que essa ou aquela coisa particular significam.

    Tampouco devemos definhar em desencorajamento. O Senhor jamais nos desencorajaria. Ele pode nos açoitar e corrigir, mas é sempre e apenas o inimigo que buscaria nos desencorajar.

    Nas mais difíceis circunstâncias, oremos ao Senhor para que avance nossa santificação e traga-nos para mais perto dele. Certifiquemo-nos que, em todas as nossas expressões apropriadas de tristeza por não podermos nos reunir neste momento, como normalmente faríamos, não sucumbamos ao desencorajamento. Que nossa esperança nele queima mais brilhantemente do que nunca para que, conforme tenhamos oportunidade, possamos falar aos outros da esperança que há em nós (1 Pedro 3:15). Que a esperança verdadeiramente imarcescível seja intocável mesmo em meio a este tempo de trevas e confusão, dando luz a todos nós.

O autor é um ministro da Orthodox Presbyterian Chuch, professor do Mid-America Reformed Seminary. New Horizons, May 2020.

Confira o texto original.

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