Aristóteles na visão de Filipe Melâncton

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Filipe Melâncton é consistente na forma como ele lida com a apropriação do pensamento clássico e particularmente aristotélico, pensando sobre a virtude para o benefício dos cristãos. Melâncton vê que Aristóteles tem uma utilidade especial para fins políticos, desde que seja dada a sua insistência de que Aristóteles deveria ser considerado apenas quando fala de virtudes cívicas ou temporais: virtude coram hominibus em vez de virtude coram Deo. E isto é uma coisa diferente da virtude espiritual diante de Deus, que Aristóteles não entendeu ou tratou.

A razão, para Melâncton, é direta: Aristóteles não sabia que o vício espiritual tem suas raízes no pecado original. E se ele nem mesmo reconhecia essa verdade, certamente ignorava seu remédio e o verdadeiro meio de cultivar a virtude diante de Deus no homem interior, no que poderia ser chamado de perspectiva “teonômica”(theonomous).

Uma boa ilustração da posição de Melâncton é encontrada em alguns comentários dele no primeiro capítulo da Ética a Nicômaco de Aristóteles, na qual o filósofo levanta a questão da relação entre natureza e habituação — ensino e treinamento — na aquisição da virtude. Na passagem seguinte, Melâncton contrasta a virtude e os motivos de virtude de José com o relato aristotélico, e contrasta tanto com a justiça imputada recebida na justificação (este é o José de Gênesis, não dos Evangelhos). Após a discussão de como as preocupações de Aristóteles devem ser melhor equilibradas, Melâncton escreve:

Os alunos devem ser informados do que Aristóteles diz sobre as virtudes cívicas; fala-se de virtudes espirituais um pouco diferentes, como no caso de José, existem quatro causas simultâneas de virtude espiritual: a Palavra de Deus, o Espírito Santo, a mente que dá assentimento e a vontade que obedece. José pensa no mandamento ‘Não adulterarás’, e o Espírito Santo inclina a mente para assentir com o mandamento e reunir múltiplas causas: ‘para que Deus em sua ira não te rejeite, não te castigue com presentes e punições futuras e tire seus atuais benefícios. Além disso, deves atentar para a ocasião em que o escândalo ocorreu; da mesma forma, deves poupar a consciência dos outros’. Por esses argumentos, sua vontade é movida e o Espírito Santo confirma sua esperança, resultando na obediência à lei. E a vontade, fortalecida e despertada pelo Espírito Santo, restringe os membros externos, enquanto José também se edifica pelo treinamento que recebeu, evita encontros próximos com mulheres e presença em festas debochadas, ele fixa sua mente mais agudamente nas tarefas de seu ofício, seus estudos e orações, como também o Apóstolo Paulo, por seu próprio exemplo, recomenda o treinamento, dizendo em I Coríntios IX, 27: “subjugo meu corpo e dele faço servo”. Essas coisas acontecem em parte porque o Espírito Santo o move, em parte pela diligência humana. Mas, em relação à justiça, isto é, concernente à imputação, a questão completamente diferente e por ela passo aqui.[1]

[1] — In secundum librum Ethicorum Aristotelis enarrationes Philippi Melanthonis, caputI.


Esse texto é uma tradução do site The Calvinist International.

Autor: E.J. Hutchinson

Título Original: Melanchthon’s Aristotle: Civic Virtue

Texto Original: https://bit.ly/2I3gJ4W

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