A reforma não intencionada de Dostoiévski

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Os personagens de Fiodor Dostoiévski, como o próprio Fiodor Dostoiévski (surpresa!), frequentemente revelam uma hostilidade ao protestantismo e, em geral, à cristandade ocidental.

Pode-se ver isso em Os Irmãos Karamazov. Por exemplo, em O Grande Inquisidor, Ivan se refere a “uma terrível nova heresia” que “apareceu no norte da Alemanha”, isto é, o luteranismo [1]. Em Que Assim Seja! Que Assim Seja!, numa discussão sobre tribunais eclesiásticos, o ancião Zosima afirma que fora da Rússia “em muitos casos, não há igrejas em lugar algum, pois apesar de permanecerem esplêndidas igrejas e edifícios eclesiásticos, as próprias igrejas têm se esforçado muito para passar da Igreja para o Estado e, assim, desaparecer por completo. Pelo menos é o que parece nos países luteranos”. Novamente, em O Ancião Zosima e Seus Visitantes, Zosima se refere, numa seção sobre “Das Sagradas Escrituras na Vida do Padre Zosima”, aos “luteranos e hereges” que chegam a “conduzir o rebanho para o caminho errado.”[2]

Este último exemplo é particularmente interessante, já que o número considerável de afirmações na seção sobre a centralidade da Palavra, seu papel insubstituível como a dobradiça sobre a qual a piedade pessoal gira, e a necessidade de lê-la e ensiná-la com clareza e simplicidade (p.e.: “Oh céus, que livro é este e que lições há nele! Que livro é a Bíblia, que milagre, que força é dada ao homem!”; “O povo está perdido sem a Palavra de Deus, pois sua alma está sedenta da Palavra e por tudo o que é bom”) soa como se pudessem ter sido retirados do Catecismo Maior de Martinho Lutero.

Isto talvez não seja um acidente. Pois na mesma seção, Zosima diz:

Da casa de minha infância não trouxe nada além de preciosas memórias, pois não há memórias mais preciosas do que as da primeira infância em sua primeira casa. E isso é quase sempre assim se houver algum amor e harmonia na família. De fato, memórias preciosas podem permanecer até mesmo num lar ruim se apenas o coração souber como encontrar o que é precioso. Com minhas memórias de casa, conto, também, minhas memórias da Bíblia, que, sendo uma criança, ficava muito ansioso para ler em casa. Eu tinha um livro da história das Escrituras que possuía excelentes imagens, chamado de Cento e Quatro histórias do Antigo e do Novo Testamento, e com ele aprendi a ler. Eu o tenho em minha prateleira agora e o mantenho como uma preciosa relíquia do passado.

A própria biografia de Dostoiévski está escondida aqui também. Como Pevear e Volokhonsky apontam, “de acordo com sua esposa, Dostoiévski tinha este livro [i.e. Cento e Quatro Histórias] quando criança e ‘com ele aprendeu a ler’”.

Então, que livro é esse? É uma tradução russa de um livro alemão de Johann Hübner (1668–1731), chamado Zweymal zwey und funffzig auserlesene biblische Historien aus dem Alten und Neuen Testamente, der Jugend zum Besten abgefasset, publicado pela primeira vez em 1714 e posteriormente traduzido para muitas línguas. The Biblische Historien é uma série de histórias da Bíblia simplificadas e resumidas com o objetivo de familiarizar as crianças com o conteúdo da Bíblia.

E quem foi Hübner? Ele foi um professor luterano alemão que ensinava através de um método catequético, ou de perguntas e respostas, e que escreveu um epítome da Bíblia adequado a esse propósito. Ruth B. Bottigheimer, em um artigo sobre Eva na versão Hübner do Gênesis (Associação de Literatura Infantil Trimestral 16 [1991]: 73–78), observa que seu resumo bíblico, “destinado ao uso das crianças na escola e em casa”, “permaneceu impresso por mais de duzentos anos, foi revisado mais de vinte vezes e traduzido em, pelo menos, quinze idiomas europeus. Composta por um luterano, foi usada pelos protestantes em toda a Europa e, na Áustria, sob o reinado de José II, possivelmente por católicos”.

Podemos obter um pouco mais de informações do recente livro de Malachi Haim Hacohen, Jacó e Esaú: História Judaica Europeia entre a Nação e o Império. Hacohen nos conta que o livro de Hübner “saiu em trinta edições, vendeu duzentos mil exemplares nos primeiros cem anos e foi traduzido para quinze línguas, tendo também versões Católicas e Calvinistas. Usando versos bíblicos encurtados, Hübner recitou histórias do Antigo e do Novo Testamento, uma de cada para ser lida por semana. As histórias foram seguidas por perguntas simples, instrução moral e edificantes apelos cristãos”. Ele observa ainda que o livro de Hübner “permanecia como o livro-texto protestante mais popular” para a instrução religiosa até o século dezenove (lembre-se que Dostoiévski nasceu em 1821).

Este, então, é o livro que exerceu influência tão profunda sobre o jovem Dostoiévski, como o Novo Testamento o faria mais tarde quando esteve na prisão. Esse fato talvez seja de certa forma explicativo (especulo, num humor extravagante; advirto ao leitor) pela curiosa sinonímia que se sente às vezes — a despeito do professado anti-Protestantismo de Dostoiévski — entre Dostoiévski e o que se poderia chamar (o termo é anacrônico) o lado “existencialista” do luteranismo como visto no próprio Lutero e particularmente no contemporâneo Søren Kierkegaard de Dostoiévski. Atualmente, estou lendo Os Irmãos Karamazov com uma turma de estudantes universitários, e tive essa estranha sensação mais de uma vez. O Oriente e o Ocidente nem sempre estão, e em todos os sentidos, tão distantes quanto se pode supor.

Conclusão
Com relação às Bíblias infantis, ou resumos bíblicos, deve-se assinalar uma distinção entre os Luteranos e os Reformados, apesar de uma boa dose de influência mútua (como observado acima, os Reformados fizeram uso do livro de Hübner). Em seu livro de 2014 Alfabetização na Europa Moderna, R.A. Houston descreve algumas dessas diferenças da seguinte forma:

As ordenanças da escola luterana não prescreviam a leitura da Bíblia. Os calvinistas fizeram. Da mesma forma, as versões luteranas dos séculos dezesseis e dezessete tinham, invariavelmente, edições e extrações, que incluíam ‘catequização, versificação, hinificação e sintetização’. Em contraste, as versões calvinistas incluíam o texto canônico. As crianças Calvinistas liam a Bíblia; as Luteranas liam sobre a Bíblia. Os Alemães Calvinistas, jovens e velhos, provavelmente leram a Bíblia de Lutero em vez de outra tradução, e muitos mais Calvinistas que Luteranos leram a versão de Lutero.

O relato de Houston é apoiado pelo que Ruth G. Bottigheimer argumentou há mais de 25 anos em “Leitura da Bíblia, ‘Bíblias’ e a Bíblia para crianças na Alemanha Moderna”(Past & Present 139 [1993]: 66–89). Talvez mais sobre isso em breve.


Notas

[1] Cito a tradução de Constance Garnett por conveniência, embora os títulos de capítulo e seção (onde eles diferem de Garnett) sejam da versão de Richard Pevear e Larissa Volokhonsky.
[2] No livro, a única outra referência aos luteranos está no capítulo “O Terceiro Filho, Alyosha”, onde Fyodor diz: “Os monges do mosteiro provavelmente creem que há um limite no inferno, por exemplo. Agora estou pronto para acreditar no inferno, porém, sem um limite. Isso o torna mais refinado, mais esclarecido, mais luterano que é ”.

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