A necessidade de um Telos para o sentido da vida

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Em todas as atividades humanas há um fim a ser almejado e atingido. Há um fim-último que é buscado por si mesmo cujo caminho para atingi-lo são os meios empregados em situações concretas. Quando se busca um fim, não por si mesmo, mas em vista de um fim maior, então, fala-se de um fim-meio, que é o caminho para o fim supremo, que, por sua vez, torna-se o telos da vida humana, enfim, a felicidade. Esse é o entendimento em Aristóteles para o sentido da vida: uma felicidade futura contemplada no presente, capaz de mover a vontade de sentido do homem, fazendo-o perceber sua natureza sociável e dando-lhe condições para agir virtuosamente e em caráter comunitário.

“cedam todos aos filósofos que disseram não ser feliz o homem que goza do corpo nem o que goza da alma, mas o que goza de Deus” — Santo Agostinho

Essa felicidade não pode ser compreendida como um estado de bem-estar emocional da alma, prazeres momentâneos e passageiros que facilmente se esvaem da mesma forma como aparecem. Trata-se de uma felicidade plena e inserida num conjunto de bens que constituem a vida boa, dentre os quais, os bens da alma que cooperam na totalidade do ser e agir humanos com vistas a essa felicidade. Por se tratar, esse fim, da realização plena e da excelência do bem viver, as ações que conduzirão ao caminho desse fim devem também ser excelentes.

Quando age segundo a melhor virtude, empregando esforços e ordenando sua vida a um telos, o conjunto das ações revela que o homem não é um ser compartimentalizado e que age e decide apenas em sua racionalidade em detrimento a suas emoções e desejos, mas alguém que se realiza na sua constituição integral: vontade, intelecto e emoções. Como a felicidade tende a um telos, aponta para um futuro, a algo ainda por vir, cuja escolha comparece na alma em sua função volitiva, pertencente à parte racional e capaz de eleger os fins a que se dispõe. Por essa razão há manifesta distinção entre o homem e o animal, já que apenas o homem vive sob um telos, único ser apto à felicidade e, portanto, único que necessita de um sentido na vida. Desprovido desse sentido de vida, de uma vontade de sentido que dê motivação ou capacidade de realizá-lo, o homem jamais terá uma finalidade a alcançar. Asserção que também pode ser verdadeira quando invertida sua ordem: sem um fim supremo em vista, o homem malogra sem sentido da vida, já que nenhuma
vontade de sentido — que tende a um fim, a um futuro — haverá para movê-lo a ações realizáveis.

À beira do desespero, quando falta o sentido da vida em decorrência de lhe faltar um propósito futuro, que por sua vez resulta na falta de ações que se movem em prol desse propósito, o vazio existencial torna-se cada vez mais presente e a busca de sentido logo percorre as sendas da satisfação por prazeres momentâneos, que constituem a vida inferior. Nesse caso, na ausência de sentido da vida, ausentes estarão também ações que se movem para o futuro, ações que mirem um bem supremo. Inexistindo a necessidade superior, haverá uma busca desenfreada por necessidades imediatas e inferiores e, nessa situação, as ações morrem com os momentos, paralisam o tempo presente, esmaecendo com ele, frustrando o indivíduo e aprisionando-o cada vez mais a esses desejos primários. Tornam-se como a sanguessuga do livro sapiencial: quanto mais sangue sugam dos prazeres, mais sangue desejam e nunca se fartam; nunca há um basta! [1]

Em outras palavras, a felicidade como um summum bonum é tão primordial para ordenar a vida humana que sua ausência significa ausência do sentido da vida; significa frustração, desespero, vazio existencial. Embora futura e almejada, essa felicidade pode ser contínua no presente, como uma espécie de primícias da sua plenitude futura, mesmo em condições mínimas. A expectativa de sua finalização plena traz razão para ser feliz desde já, pois o sentido da vida não apenas move o homem a aguardar com entusiasmo o cumprimento do telos futuro, mas a desfrutar presentemente dos seus frutos. Por essa razão Aristóteles definiu a felicidade como uma atividade da alma segundo a melhor virtude, pois o homem torna-se virtuoso e age virtuosamente simplesmente porque tem algo em vista, tem planos, tem um fim último que o movimenta a, desde já, tomar disposição para agir da melhor forma, com maior excelência. Assim é infeliz e incapaz de viver quem não possua um sentido na vida [2]. Foi exatamente essa experiência de Vitor Frankl no campo de concentração nazista em Auschwitz e Dachau, ao constatar que aquelas pessoas que viviam tendo um fim em vista, orientadas para o futuro, a uma tarefa que as aguardava mais adiante, eram as mais capazes de sobreviver, mesmo em condições extremas de sofrimentos [3].

Mas a senda da felicidade não se percorre à parte da percepção humana daquilo que a transcende, isto é, da responsabilidade humana não apenas diante da humanidade, mas também do divino [4], pois o homem é religioso por natureza; em seu âmago reside o fenômeno do sensus divinitatis, a necessidade religiosa de se mover em direção a um ser supremo e transcendente que, a princípio, lhe aponta para um propósito último; e o faz perceber, ao longo de sua existência, sua responsabilidade que o leva a comparecer perante o tribunal de sua consciência e perceber o sentido
último de sua vida, respondendo para si mesmo, não o “porquê” da sua existência, mas “por Quem” ele deve essa existência, já que não é a pergunta “para que” que se torna relevante, mas a pergunta “diante de que” de seu ser responsável [5].

Quando a fé está presente, o fim último torna-se mais excelso em relação aos fins de feições terrenas, por carregar em si uma natureza sobrenatural mas, nem por isso, intangível ou utópica, pois, se mirar um fim significa concebê-lo como um ideal factível, a certeza concreta daquilo que ainda não se vê — e esta é natureza da fé — logo, a vontade de sentido certamente estará ratificada na alma já que não há nenhuma vontade de sentido se não houver certeza de um fim realizável, mesmo que esse fim seja objeto de fé.

Até mesmo o mais confessado ateu possui um sentido de vida de cunho religioso, pois ainda que ele não confesse uma fé em um Deus pessoal, vive sob um telos que mira a um bem supremo, corroborando o que disse Albert Einsten “que um homem que encontra uma resposta à questão do sentido da vida é um homem religioso” [6], ainda que essa religiosidade seja praticada na seara do materialismo e do ateísmo prático. Pascal disse que há um vazio no formato de Deus no coração de cada homem e esse abismo infinito só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, isto é, o próprio Deus [7]. O sentido da vida é inato ao homem e a ele transcende, quer reconheça quer não, o que somente sofre sua perda quando o perde. Foi o que Frankl percebeu em seu trabalho logoterápico quando afirmou ver “morrer ateus convictos que durante toda a vida se horrorizavam com a crença em ‘um ente superior’ ou em algo semelhante, em uma acepção dimensional do sentido elevado da vida.” [8]

Santo Agostinho conclamou “cedam todos aos filósofos que disseram não ser feliz o homem que goza do corpo nem o que goza da alma, mas o que goza de Deus” [9]. E, respaldado em Platão, disse que tal filósofo “estabeleceu que o fim do bem é viver de acordo com a virtude, o que pode conseguir apenas quem conhece e imita a Deus, e que tal é a única fonte de sua felicidade” [10].
Todavia, essa fé deve ser substancial e contrária a uma fé cega e ignorante que salta no escuro, pois as bases sólidas da fé real apoia-se firmemente no conjunto de crenças proposicionais recebidas que orientam para o caminho do Summun Bonum. O trajeto desse caminho dá o sentido religioso da vida porque dá convicção à pessoa “por Quem” e “para Quem” ela vive, orientando-a à certeza de uma vocação a desempenhar no mundo e, por fim, fazendo-a ordenar sua vida em torno dessa vocação. Nesse sentido, a crença no divino supera a mera fé contemplativa e ortodoxa e alcança a práxis — a
vida em consonância à fé — engrandecendo ainda mais o sentido da vida, sob um propósito maior e sobrenatural no cumprimento de uma missão terrena, mas de princípios sobrenaturais, dando firmes fundamentos para a constância e perseverança.

Logo, se se remove esse telos da vida humana, paralelamente, remove-se toda esperança de uma vida com sentido, pois a certeza e a esperança numa felicidade pressupõe que tudo na vida, no cosmo, no ser, movimenta-se teleologicamente para um fim derradeiro e supremo. A certeza de um fim último corrobora e dá sentido às ações e realizações humanas; testifica o contínuo movimento do universo, o misterioso desenrolar da vida e de sua luta por preservação e sobrevivência. Caso contrário, restar-se-á, inevitavelmente, o desespero diante da brevidade e vaidade da vida, obrigando-nos a, tragicamente, confessarmos com Nietzsche e outros filósofos uma filosofia niilista formulada pelo conceito cíclico da história em que os eventos repetem-se indefinidamente, e, portanto, nada há sentido, pois “Tudo vai, tudo torna; a roda da existência gira eternamente.” [11]

Porém, o conceito teísta propõe ao mundo exatamente o oposto a esse pensamento filosófico desesperador ao crer na intervenção divina espaço-temporal na história humana — sim, em nossa história -, quando o curso dos acontecimentos tiveram a clara e firme revelação, de maneira proposicional e objetiva, de um telos divino a que todos devem se voltar como a única e suprema felicidade, aqui e agora, e cujo aperfeiçoamento glorioso dar-se-á num futuro histórico e escatológico. A natureza da fé, portanto, é a de viver em função desse telos que transcende a breve e limitada existência terrena e em cuja esperança humana não pode repousar tão somente nas condições naturais e físicas das ações e idealizações humanas, pois sua fé não é um salto na escuridão e nem de natureza irracional, mas uma fé fundada em conteúdo sólido, que aponta para uma realidade substancial, real e histórica; fé cujo fundamento não se encontra em si mesma, mas na obra completada por Cristo na cruz [12], o Verbo divino, que entrou no mundo material e na história
humana, e foi revelado ao homem de forma visível e, por fim, de forma lógica e verbalizada pelas Escrituras, a ultima ratio de todas as questões e controvérsias da razão humana.

Portanto, a vida possui um sentido porque o Seu autor é quem lhe deu esse sentido ao criar todas as coisas, inclusive e principalmente o homem para um propósito, outorgando-lhe responsabilidades, funções e um telos final, inclusive, meios para caminhar em função desse telos. E a felicidade só é inata no coração humano porque, a priori, há um Ser que se mostra como a pura e verdadeira felicidade ao homem, de modo que o senso do divino sempre há de apontar para esse Ser transcendente em que todas as demais buscas e realizações humanas, à parte desse Ser, transformam-se em meras apalpadelas na escuridão.

Caminhante Sobre o Mar de Névoa, Caspar D. Friedrich (1817)

por Rodrigo Ferreira dos Santos.


[1] Provérbios 30, 15.

[2] Frankl, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É Realizações, 2015. p. 23.

[3] Ibid.

[4] Ibid. p. 87.

[5] Ibid.

[6] Ibid. p. 88.

[7] Pascal, B. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1984, p. 137.

[8] Frankl, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É
Realizações, 2015. p. 88.

[9] Santo Agostinho. A Cidade de Deus, parte I. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. p. 400.

[10] Ibid.

[11] Nietzsche, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Disponível em: <http://lelivros.love/book/download-assim-falava-
zaratustra-friedrich-w-nietzsche-em-epub-mobi-e-pdf/ >. p. 142. Acesso em: 30 abr. 2019.

[12] Schaeffer, Francis. O Deus que intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 205.


Autor: Rodrigo Ferreira dos Santos, editor do Instituto Aletheia.

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