A Ceia do Senhor

com qual frequência?

por D. G. Hart e John R. Muether

tradução de Natan Cerqueira

     O Diretório de Culto da Igreja Presbiteriana Ortodoxa [1] parece dar duas instruções muito diferentes acerca da Ceia do Senhor. Por um lado, ele descreve a Ceia do Senhor, assim como o Batismo, como um elemento “ocasional” do culto público a Deus. Por outro lado, ele direciona as congregações a celebrar a Ceia do Senhor “frequentemente”. Então, um literalista pode perguntar, qual é o direcionamento: ocasional ou frequente? Em bom modo presbiteriano, o Diretório deixa para que os conselhos determinem: “a frequência pode ser determinada por cada conselho segundo julgar mais propício para edificação” (IV:A:2). [2]

     Quando a OPC foi fundada, em 1936, ela herdou um padrão bem estabelecido no presbiterianismo americano, o de observância trimestral da Ceia do Senhor. Muitas igrejas da OPC aumentaram a observância para frequências bimestrais ou mensais, mas mesmo isso deixa alguns ministros e presbíteros insatisfeitos. As igrejas deveriam celebrar a Ceia do Senhor semanalmente? No que os conselhos lidam com a questão da frequência, pode ser instrutivo dar uma olhada em como presbiterianos praticavam a comunhão no passado.

     A maioria dos estudiosos de Calvino estão cientes de que seu desejo era que as igrejas praticassem a comunhão semanal. Calvino acreditava que essa frequência podia ser encontrada tanto no ensino e exemplo apostólico, além de ela também ter sido a prática dos pais da Igreja. Mais, Calvino enxergava a observância semanal como necessária para unir o ministério da palavra e do sacramento. Ao selar as promessas proclamadas na pregação da palavra, a comunhão semanal habilitava os cristãos a frequentemente voltarem em memória à obra de Cristo e “por tal recordação sua fé sustivessem e fortalecessem”. [3]

     A comunhão pouco frequente, Calvino dizia, era um horror supersticioso, “certamente um invento do Diabo”, que ele considerava o pior dos muitos abusos do culto no catolicismo medieval. Para Calvino, a comunhão semanal não era menos importante do que as outras reformas que ele queria, tais como o uso do cálice pelo laicato e o culto na língua vernacular. Calvino, então, chegou à conclusão de que “ao mínimo cada semana se deveria pôr diante da reunião dos cristãos a mesa do Senhor [e] declarar as promessas que nela nos alimentam espiritualmente”. [4]

     Os estudiosos de Calvino também sabem que ele não conseguia o que queria em matéria de frequência da comunhão, pois o Consistório de Genebra nunca aprovou esse elemento do programa de reforma de Calvino. Tampouco seus descendentes presbiterianos adotaram esse desejo de Calvino. A culpa para isso é normalmente posta em outro reformador, Ulrico Zuínglio, e em sua visão memorial da Ceia. Se o sacramento não for um meio de graça, se o pão e o vinho meramente simbolizarem ao invés de abrangerem o corpo e o sangue de Cristo, há pouca urgência para a celebração frequente. O próprio Zuínglio sugeriu observância trimestral: uma vez no outono e as outras no Natal, na Páscoa e no Pentecostes. Embora a OPC oficialmente rejeite a visão zuingliana em seus padrões confessionais, deveríamos nos perguntar se não nos tornamos zuinglianos na prática quando a Ceia se torna uma adição infrequente ao ministério da Palavra. Como Donald MacLeod sugeriu, “há mais zuinglianos entre os presbiterianos de hoje do que alguém se aventuraria a estimar”.

     Mas a prática presbiteriana contemporânea pode dever menos ao legado de Zuínglio do que aos comumente ignorados desenvolvimentos do presbiterianismo escocês. Embora a Ordem de Genebra (1556), de João Knox, advogasse em favor da comunhão mensal, o Primeiro Livro de Disciplina adotado pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia (1562) recomendava a observância trimestral nas cidades e duas vezes por ano nas paróquias rurais.

     Até o século XVIII, a prática escocesa gradualmente se tornou ainda menos frequente até o ponto em que a comunhão era geralmente celebrada anualmente. As razões para esse declínio incluíam a hostilidade para com o episcopado, pobreza (que tornou o pão escasso) e uma falta de ministros qualificados. Como o historiador Leigh Eric Schmidt conta a história em seu Holy Fairs: Scottish Communions and American Revivals in the Early Modern Period (1989), o resultado foi um triunfo da festividade sobre a frequência. Esses ritos anuais se desenvolveram em festivais elaborados que duravam a semana toda e eram chamados de “Temporadas de Comunhão”, que normalmente incluíam uma quinta-feira de jejum, um culto preparatório no sábado (onde fichas de comunhão eram distribuídas [5]) e um culto de ações de graças na segunda-feira, que se seguia à observância do domingo.

     O efeito dessas temporadas foi a sutil redefinição da espiritualidade presbiteriana. A piedade popular começou a revolver esses gigantescos encontros ao ar livre. Como essas ocasiões frequentemente resultavam em reavivamento religioso, eles se transformaram nos antecessores das reuniões campais [6] e na trilha de serragem [7] do revivalismo americano. Ironicamente, esses cultos espetaculares excederiam em pompa o catolicismo medieval que os presbiterianos buscaram reformar.

     A temporada de comunhão escocesa foi transplantada ao novo mundo, para o presbiterianismo americano, mediante do Diretório de Culto de 1787, mas essa prática esteve sob ataque da pena de John Mitchell Mason, pastor nova iorquino educado na Escócia. Em seu livro de 1798, Letters on Frequent Communion, Mason esperava que a reinstituição da frequência restauraria a simplicidade e reorientasse o ritmo da piedade presbiteriana. Uma vez que a Bíblia não sancionava dias santos nem festivais além do semanal Dia do Senhor, as igrejas deveriam cultivar uma piedade não por meio de grandes apresentações com evangelistas itinerantes, mas por meio da observância regular e despretensiosa de todos os exteriores meios ordinários de graça. Essa devoção contínua e regular, defendia Mason, poderia ser nutrida apenas atrás da comunhão semanal, Dia do Senhor após Dia do Senhor.

     A crítica de Mason contra a festividade escocesa encontrou favor com J. W. Alexander. Escrevendo para o Biblical Repertory and Princeton Review, em 1840, Alexander via a inovação escocesa da temporada de comunhão como “perniciosa” e sem base escriturística. Ao acrescentar tamanho e número de cultos relacionados ao sacramento, a igreja estava sendo pesada para com os “membros mais frágeis do rebanho”. Embora a prática de fato ampliasse a “gravidade” da celebração, ela também acrescentava “um mistério ou horror não escriturístico […] Ao invés de ser uma ordenança atraente e deleitosa, ela se torna, então, em amedrontadora e repulsiva.” Alexander concluiu, com Calvino e com Masos, que “a história eclesiástica oferece a mais forte base para se presumir que a Ceia do Senhor era celebrada todo Dia do Senhor”.

     Fique-se claro, a mera frequência não vai livrar nossas igrejas do zuinglianismo ou de outras falsas crenças e práticas acerca da Ceia do Senhor. Nós também deveríamos estar cientes de como a comunhão semanal pode tentar os tomadores a uma ameaçadora familiaridade com o sacramento (um alerta, claro, que se aplica aos outros meios de graça que as igrejas corretamente observam toda semana).

     Não obstante, pastores e presbíteros da OPC que estão buscando maior fidelidade à observância tanto do Dia do Senhor quanto da Ceia do Senhor deveriam considerar a sugestão de Mason e de Alexander de que os dois devem trabalhar juntos e não com objetivos cruzados. Deveríamos mesmo nos surpreender que a vida devocional da igreja parece fora de ritmo, se os conselhos oferecem dois ritmos diferentes para vida devocional: a cadência exterior e ordinária da observância do Dia do Senhor e o infrequente e extraordinário hábito da Ceia ocasional? O poder eficaz do sacramento fica comprometido se ele fica às margens do culto público de Deus. A observância semanal, sustentou Mason, restaura a Ceia do Senhor da periferia do culto cristão ao seu coração.


[1] Em inglês, Orthodox Presbyterian Church (OPC).

[2] Semelhantemente, nos Princípios de Liturgia da Igreja Presbiteriana do Brasil (PL/IPB), Art. 13, lê-se: “A Santa Comunhão ou Ceia do Senhor deve ser celebrada com frequência e compete ao Conselho, ou ministro, tratando-se de congregação, decidir quanto às ocasiões em que deve ser administrada, para maior proveito e edificação dos crentes”.

[3] Institutas IV.XVII.44

[4] Institutas IV.XVII.46

[5] Uma ficha ou símbolo de comunhão é uma ficha de metal emitido para os membros das igrejas reformadas, a fim de fornecer-lhes entrada para a Ceia do Senhor. (Wikipédia)

[6] A reunião campal é uma forma de serviço religioso cristão protestante originário da Inglaterra e da Escócia como um evento evangélico associado à época da comunhão. Foi realizado para adoração, pregação e comunhão na fronteira americana durante o Segundo Grande Avivamento do início do século XIX. (Wikipédia)

[7] A trilha de serragem ou o circuito de serragem consistia em uma série de edifícios temporários ou barracas usadas por ministros itinerantes para reuniões de reavivamento. (Wikipédia)

Extraído de Ordained Servant vol. 6, no. 4 (Outubro 1997)

Original: https://www.opc.org/OS/html/V6/4l.html